quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Conferência «Os 40 anos da Revolução dos Cravos»


     Teve lugar no anfiteatro do Lycée International, ontem pela tarde, a conferência proferida pelo Ex.mo Senhor Embaixador Francisco Seixas da Costa sob o tema "Os 40 anos da Revolução dos Cravos".
     Um sentido agradecimento ao Senhor Embaixador pela sua palestra, assim como à presença de Monsieur le Proviseur du Lycée International, M. Bianco, de Madame la Principale Adjointe, Mme Mellet, da Senhora Coordenadora do Ensino do Português em França, Dra. Adelaide Cristóvão, e das secções espanhola e italiana, sem esquecer todos os elementos da Secção Portuguesa.

O Senhor Embaixador, Francisco Seixas da Costa, rodeado pela Senhora Coordenadora, Dra. Adelaide Cristóvão e pelo Senhor Diretor da Secção Portuguesa, Dr. José Carlos Janela.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

O desvio do Santa Maria e o princípio da Guerra do Ultramar

CLIQUE AQUI

     No dia 22 de janeiro de 1961, o paquete "Santa Maria" é desviado pela Direcção Revolucionária Ibérica de Libertação - DRIL, um movimento de opositores ao regime salazarista liderado pelo capitão do exército, Henrique Galvão.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Dia de Reis - Dia de Reyes

Os Reis Magos (Atlas Catalão, séc. XIV)
Dia de Reis no Liceu Internacional juntamente com nuestros hermanos da secção espanhola, com direito a degustação das especialidades dos dois países!
Turrón de Jijona, Mazapán e Bolo-rei


terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Efemérides da História Lusófona: #6 A execução de D. Inês de Castro (07 de janeiro de 1355)

– Os amores proibidos de D. Pedro I –
    Nem todas datas que marcam a História de um país assinalam acontecimentos grandiosos. Por vezes também assinalam acontecimentos de má memória. E às vezes há datas que lembram episódios que podem nem parecer importantes, mas que acabam por criar lendas que são lembradas ao longo dos séculos. Foi isso que aconteceu com esta história...
D. Afonso IV de Portugal (autor desconhecido)
     Depois da morte do rei D. Dinis, subiu ao trono o seu filho, D. Afonso IV. Este tinha como herdeiro D. Pedro, que casou com uma nobre castelhana, D. Constança. Quando D. Constança chegou a Portugal, em 1340, trazia, como uma das suas damas de companhia, uma fidalga galega, D. Inês de Castro, por quem D. Pedro se apaixonou perdidamente. Esta relação de infidelidade levou D. Afonso IV a obrigar D. Inês a voltar para Castela. Mas, quando D. Constança morreu, em 1349, D. Inês regressou a Portugal e foi viver com D. Pedro como sua mulher (ainda que não fossem casados). Desta relação entre D. Pedro e D. Inês nasceram quatro filhos – que seriam reconhecidos como legítimos alguns anos mais tarde. Porém, este romance apaixonado entre o herdeiro do trono português e uma nobre galega não era do agrado dos nobres e do rei D. Afonso IV. Criticavam a relação adúltera (e para alguns era mesmo incestuosa, porque D. Pedro e D. Inês eram primos em segundo grau), e o facto de terem tido filhos podia ser um risco para o herdeiro legítimo de D. Pedro. Além disso, D. Inês fazia parte de uma poderosa família de Castela e D. Pedro podia correr o risco de se deixar influenciar pelos nobres castelhanos. Foi assim que D. Afonso IV ordenou, em 1355, a morte de D. Inês de Castro. D. Inês foi executada no dia 7 de janeiro desse ano.
D. Pedro I de Portugal (autor desconhecido)
     A história de Pedro e Inês tornou-se uma lenda e, como todas as lendas, já não se sabe bem o que é verdade ou mentira. O certo é que é uma história que ainda hoje continua a fazer sonhar os mais românticos...


– A Quinta das Lágrimas –
     Diz a lenda que o nome dado ao local onde D. Inês de Castro terá sido executada – a Quinta das Lágrimas, em Coimbra – se ficou a dever às lágrimas derramadas por D. Inês ao ser morta pelos seus carrascos. Das suas lágrimas terá também surgido a Fonte das Lágrimas, que lembra a sua injusta execução e que recordará, para sempre, a todos os que a visitarem, o amor trágico entre os mais famosos apaixonados da História de Portugal.
Vista da Quinta das Lágrimas, em Coimbra
– D. Pedro I –
     Depois da morte de D. Inês, D. Pedro revoltou-se contra o pai, numa guerra que duraria alguns meses. Com a morte de D. Afonso IV em 1357, D. Pedro tornou-se rei de Portugal. Quando subiu ao trono, D. Pedro perseguiu, prendeu e mandou matar os assassinos de D. Inês. Aos que criticavam a relação ilegítima respondeu revelando que tinha casado em 1353 e que os filhos de ambos eram, assim, filhos legítimos.
     Este romance entre D. Pedro e D. Inês viria a gerar uma verdadeira lenda. Um dos episódios desta história diz que D. Pedro mandou coroar, depois de morta, D. Inês como rainha, obrigando todos na corte a beijar a mão da rainha morta e a reconhecê-la como a rainha legítima.
A coroação póstuma de D. Inês de Castro, por Pierre-Charles Comte, 1849
     D. Pedro reinou durante um período de dez anos de paz, não se envolvendo em lutas com Castela. Foi um monarca que se preocupou muito com a justiça, mas muitas vezes tomava decisões por capricho, tendo mandado executar várias pessoas. O povo gostava muito dele, apesar de ser algo obstinado e um homem muito instável. D. Pedro morreu em 1367.

– No Mosteiro de Alcobaça –
     A Abadia de Santa Maria de Alcobaça é um dos mais antigos e maiores edifícios religiosos de Portugal. Fundada no século XII pelos monges da Ordem de Cister, as obras da sua construção começaram em 1178 e terão durado pelo menos até 1252 (altura em que terminaram os edifícios principais).
Túmulo de D. Pedro I (pormenor), Mosteiro de Alcobaça
     Foi neste mosteiro que D. Pedro mandou construir, em 1360, túmulos para si e para D. Inês. Estes túmulos são verdadeiras obras-primas da escultura medieval portuguesa. Ricamente decorados, cada túmulo apresenta o corpo esculpido de um dos amantes, mostrando muitos pormenores das figuras do rei e de D. Inês. Apoiadas por anjos, as cabeças de ambos estão um pouco levantadas. Reza a lenda que os dois apaixonados estão nesta posição para, quando chegar o dia do Juízo Final e ambos voltarem à vida, se poderem logo ver um ao outro.
Túmulo de D. Inês de Castro, Mosteiro de Alcobaça

Fonte: Ruben Castro e Ricardo Ferrand, Grandes datas de Portugal (1096-2007), Texto Editores, Lisboa, 2011.

Eusébio da Silva Ferreira (1942-2014)


   Futebolista português, nasceu em Lourenço Marques (atual Maputo) a 25 de Janeiro de 1942. Representou os clubes do Sporting de Lourenço Marques (1959/1960), Sport Lisboa e Benfica (1960/1976), Sport Clube Beira-Mar (1976/1977) e União de Tomar (1977/1978), para além de vários clubes norte-americanos.
    Foi 64 vezes internacional. Representou pela primeira vez a seleção nacional a 8 Outubro de 1961, alinhou pelo «resto do mundo» contra a Inglaterra a 23 de Outubro de 1963, fez parte da seleção europeia em 1964 e da seleção mundial em 1966. Foi considerado o melhor jogador da Europa em 1965, o melhor marcador do Mundial de 1966 e ainda o melhor futebolista do Mundial desse ano, segundo o jornal inglês News of the World. Dotado de velocidade e potência incomparáveis, é considerado um dos maiores jogadores na História do futebol.
     Falece no domingo, 5 de janeiro de 2014, aos 71 anos.
     Um eterno campeão, descanse em paz...

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Terminale (12° ano) - O Marcelismo

O MARCELISMO 1968-74

Nota : Resumo que poderá servir de pano de fundo para a orientação e plano do capítulo. Ver tb a Hist. Pt. de A. Reis e o vol. III de Oliveira Marques + Dic. Est. Novo, de F. Rosas + alguns blogs como noseahistoria podem tb encontrar resumos interessantes nos sitios anteriormente indicados.
Marcello Caetano, Presidente do Conselho
A “Primavera Marcelista” designa o período inicial do governo de Marcelo Caetano, entre 1968 e 1970, no qual se operou uma certa modernização económica e social e uma liberalização política moderada, criando a expectativa de uma verdadeira reforma do regime em Portugal, o que não chegou a acontecer. 

Por que falhou o marcelismo ? Era possível uma transição “do interior” do regime ? Foi o marcelismo um “salazarismo sem Salazar”?

Marcelo Caetano foi escolhido para suceder a António de Oliveira Salazar em Setembro de 1968, após este ter sofrido um acidente vascular cerebral que o impossibilitou de continuar a exercer o cargo de presidente do conselho de ministros . Tido com um “democrata”, veja-se o seu presurso político, Caetano, conservando embora no essencial o elenco governativo de Salazar, rodeou-se de representantes de uma nova vaga de tecnocratas, introduzindo alterações em diversos sectores:

Foi a “abertura” ou “Primavera Marcelista”, de 1968 – 1970:

Economia 

· Fim do condicionalismo industrial, abrindo-se o país ao investimento estrangeiro. 
· Lançamento de grandes obras públicas, tais como os do porto de Sines e a barragem do Alqueva. 
· Aproximação à então Comunidade Económica Europeia (CEE). 
· Desenvolvimento económico das colónias
· Aceleração da industrialização
· Nova legislação sindical
· Abertura ao investimento estrangeiro

Sociedade 

· Melhoria da assistência social. 
· Criação da ADSE para os funcionários
· Melhora da proteção social aos pescadores e trabalhadores rurais
· Ensaio de algumas propostas de democratização do ensino, lançadas pelo ministro da Educação Veiga Simão . 

Vida política interna 

· Dentro de um conceito de concessão de liberdade possível, registaram-se medidas de descompressão sobre as oposições legais ou semilegais, sendo autorizado o regresso de alguns exilados, como Mário Soares e D. António Ferreira Gomes, bispo do Porto. Autorizado também o III Congresso Republicano que reuniu a Oposição em Aveiro, vigiado e com repressão policial !
· Eliminação de algumas restrições à actividade sindical. 
· Abrandamento da vigilância dos serviços de censura, que se passou a designar por Exame Prévio. 
· Redução dos poderes da polícia política, que passou de Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE) para Direcção-Geral de Segurança (DGS). 
· Abertura do próprio partido único de apoio ao regime — União Nacional, rebaptizado Acção Nacional Popular, em 1970 — à expressão organizada de opiniões divergentes, com a constituição da Ala Liberal, assumidamente reformista, de que faziam parte Francisco Sá Carneiro, Francisco Pinto Balsemão e Mota Amaral, entre outros, e que viria a ter representação parlamentar. 
· A partir de 1969 concede-se o direito de voto às mulheres alfabetizadas
· A oposição teve direito de consulta aos cadernos eleitorais e fiscalização das mesas de voto, embora ineficaz
· Alguma oposição passa a ser semilegalizada

Política colonial 

· Prossecução da opção militar, rejeitando-se a via das negociações e a concessão de independências às províncias ultramarinas. 
· Na retórica do regime a defesa da continuação da guerra colonial era a da “proteção das populações brancas” e já não a “missão histórica e civilizadora” de Portugal.
· Os territórios de Angola e Moçambique deixam de ser “Províncias” passando a ser designados como “Estados”, recebendo tribunais, assembleias legislativas e governo
· Alterações significativas no discurso oficial, colocando a tónica na autonomia progressiva, subentendendo-se muito tenuemente uma tendência para aceitar independências brancas. 

A tentativa de legitimação da viragem política do regime foi feita através das eleições legislativas de 1969, tendo o governo demonstrado sensibilidade a algumas questões de direitos humanos: alargando o direito de voto; legalizando certos grupos oposicionistas (até aí apenas tolerados), sendo-lhes permitida a fiscalização de cadernos eleitorais e do próprio acto eleitoral; e abrandando a censura em época de campanha eleitoral .

A política de abertura de Marcello Caetano provocou reacções muito díspares em Portugal:
· No campo político afecto ao governo e ao regime houve clivagens, por vezes muito profundas, entre reformadores e integristas; 
· A oposição — tanto a legal, como a ilegal — também se fraccionou entre aqueles que aceitavam a liberalização como uma via genuína para a democratização do regime a médio e talvez mesmo a curto prazo e os que continuavam a olhar com desconfiança as novas políticas. 

     Em Abril de 1969, na cerimónia de inauguração do novo edifício das Matemáticas da nova Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra, a recusa da palavra ao presidente da Associação Académica de Coimbra — acto que levou o presidente da República Américo Tomás a ser vaiado e o presidente da Associação Académica de Coimbra a ser preso —, provocou uma crise académica resultando numa série de greves, que se prolongariam até Setembro desse ano. Este acontecimento, juntamente com a continuação da guerra colonial e a recusa da adopção de reformas mais profundas sugeridas pelos deputados da Ala Liberal — que os levou a abandonar a Assembleia Nacional, indo vários deles fundar o jornal Expresso — e, mais tarde, a crise do petróleo de 1973 e a consequente subida generalizada dos preços, veio mostrar que as hipóteses de concretização do slogan do regime Evolução na Continuidade eram nulas, abrindo-se o caminho à Revolução dos Cravos em 25 de Abril de 1974.

1970 – 1974 ; endurecimento do regime:

     O governo inicia um violento ataque aos movimentos eleitorais entretanto constituídos como a CDE, Comissão Democrática Eleitoral (vasto leque que ia desde alguns elementos da esquerda comunista aos católicos progressistas) à CEUD, Comissão Eleitoral de Unidade Democrática (que incluía alguns dos fundadores do futuro PS).

Radicalização das oposições e opções armadas cada vez mais frequentes a que responde o aumento da repressão policial e as prisões, retomam as fugas do país.

A Questão colonial 

(ver o que atrás já ficou dito)
Marcelo Caetano, embora com relutância, lá vai começando a admitir o princípio de uma certa autonomia para as colónias, entretanto rebatizadas “Estados”, título pomposamente honorífico...e só isso.

A guerra prossegue. E, com ela, o isolamento internacional :
- Em 1970 o papa Paulo VI recebe os líderes dos movimentos independentistas 
- Manifestações de protesto aquando da visita de Caetano a Londres, 1973;
- A Guiné Bissau declara-se unilateralmente independente em 1973 e é reconhecida como tal pela ONU

Internamente,
- Movimentos de oposição à guerra, deserções e fugas
- Contestações estudantis
- Contestação de setores católicos progressistas
- Protestos da Ala Liberal
- A iminência de uma “derrota vergonhosa” é admitida pela alta hierarquia militar
- Demissão de Costa Gomes e Spínola
- Publicação de Portugal e o futuro

Como explicar que o livro de Spínola, lido por Costa Gomes antes de ser publicado, e lido pelo próprio Marcelo Caetano, tivesse sido publicado ?
Spínola na Guiné, a defesa do federalismo

Era o próprio regime que começava a ruir por dentro !!

ANEXO

Dicionário da História do Estado Novo – Fernando Rosas e J.M. Brandão de Brito 

MARCELISMO 

Designação atribuída ao período final do regime do Estado Novo, marcado pela acção de Marcelo Caetano como chefe do Governo (1968-1974), e que se caracterizou por uma tentativa falhada de auto-reforma das instituições. 
É possível distinguir duas fases principais neste período: uma primeira, 1968 até finais de 1970, de relativa abertura e criação de expectativas liberalizantes, num quadro institucional de instável equilíbrio de poderes entre o chefe do Estado e o chefe do Governo e num clima político de adiamento de escolhas essenciais para o futuro do regime; uma segunda,de 1970 até à revolução de Abril de 1974, de progressiva crispação repressiva, radicalização das oposições, e isolamento e degenerescência das instituições, em consequência do impasse colonial.
Com a substituição de Salazar por Caetano, o regime deixava, pela primeira vez, de obedecer a uma chefia única e incontestada,a de O. Salazar, para se dividir em dois pólos de poder: um centrado no chefe de Estado, o almirante Américo Tomás, homem de confiança dos sectores ortodoxos; o outro centrado no novo chefe do Governo, de há muito conhecido pelos seus propósitos reformistas. E enquanto o primeiro se esforçava por manter um controlo vigilante sobre as iniciativas do segundo, este último tentava ganhar espaço de manobra para ensaiar reformas institucionais, económicas e sociais no âmbito de uma teia de compromissos constantes com as principais forças de apoio ao regime, compromissos esses que a breve trecho se revelariam paralisantes. Assim, num primeiro momento, Marcelo Caetano procura, por um lado, serenar os sectores ortodoxos através da garantia da continuação de uma política de defesa da ordem interna e da integridade dos territórios ultramarinos, e, por outro lado, atrair a simpatia de sectores liberais e tecnocratas com alguns sinais de abertura política e o empenhamento numa via desenvolvimentista: era a «renovação na continuidade», nas suas próprias palavras. Deste modo gerava igualmente algumas expectativas no seio da oposição moderada, enquanto a oposição de esquerda, mais céptica, permanecia atenta à possibilidade de explorar em seu proveito qualquer eventual abertura efectiva. 
O abrandamento da censura, o regresso do exílio do bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, e de Mário Soares, a renovação da União Nacional, com a nomeação do liberal José Guilherme de Melo e Castro para a chefia da sua comissão executiva, e uma nova legislação sindical que dispensava da homologação ministerial as direcções sindicais eleitas, foram outras tantas medidas a suscitarem expectativas de abertura liberalizante, que a oposição democrática aproveitou para se reorganizar, promovendo em 1969 o II Congresso Republicano de Aveiro. Marcelo Caetano visava, em última instância, dotar-se de uma nova legitimidade por via das eleições legislativas* de Outubro de 1969, que plebiscitariam a sua liderança, conferindo-lhe um maior espaço de manobra. Porém, apesar da participação de várias personalidades liberais nas listas da União Nacional, o certo é que a campanha eleitoral decorreu com bastantes irregularidades e num clima repressivo e as eleições se processaram com base em cadernos eleitorais muito incompletos (27,7% do universo eleitoral), sem condições de igualdade para as candidaturas em presença e com dificuldades de fiscalização em muitos locais. A esmagadora vitória das listas da UN-ANP correspondia ao apoio de apenas 15% dos potenciais eleitores, dada também a abstenção de pelo menos 42,5% dos cidadãos recenseados. E enquanto a oposição se sentia defraudada e denunciava a «farsa eleitoral», os sectores ortodoxos do regime interpretavam os resultados como um plebiscito nacional à política de defesa do Ultramar. 
Caetano limita-se, assim, a aproveitar a oportunidade para fazer finalmente uma remodelação governamental que lhe permite reforçar a componente tecnocrática nas áreas económica e social, sem ousar ir mais longe na assunção do poder, temeroso ainda da força dos «ultras» do regime e manietado pelo impasse colonial. 
O reformismo marcelista manifesta-se então nas políticas de planeamento económico e desenvolvimento industrial, com João Salgueiro e Rogério Martins, de trabalho e segurança social, com Baltasar Rebelo de Sousa e Silva Pinto, e de ensino, com Veiga Simão. 
Joga-se a fundo na integração europeia, na modernização tecnológica, na liberalização concorrencial e no planeamento económico, contra os velhos proteccionismos e o mito do «mercado único português»; na flexibilização do espartilho corporativista com o estímulo a estruturas sindicais e empresariais mais fortes, de forma a Impulsionarem o crescimento e os aumentos de produtividade das empresas, contra a malha repressiva tradicional, co-responsável pela estagnação e pelo atraso económico; numa reforma do ensino inovadora nos métodos e nos programas, na estrutura curricular, no alargamento da escolaridade e do sistema universitário, contra o imobilismo pedagógico. 
Já no plano político-institucional, a acção dos novos deputados liberais, como Pinto Leite, Sá Carneiro, Miller Guerra, Pinto Balsemão, Magalhães Mota, a dita “Ala Liberal”,esbarra com a oposição persistente da ortodoxia do regime e do próprio ministro do Interior, Gonçalves Rapazote, que mantém intactos os mecanismos repressivos e particularmente a estrutura e os métodos da polícia política, agora apelidada de Direcção-Geral de Segurança . 

E nas chamadas «conversas em família» que o presidente do Conselho apresenta na RTP, a tecla da continuidade começa a sobrepor-se claramente à tecla da renovação. 

Nos finais de 70, a balança começa a pender decisivamente para o prato do imobilismo. O poder marcelista é cada vez mais o lugar do vazio, espartilhado entre os dogmas dos «ultras», a incapacidade de encontrar uma solução para a questão colonial e as pressões dos grandes grupos económicos, que procuram ditar a sua lei. 
A revisão constitucional de 1971 acabará, assim, por ignorar todas as propostas apresentadas pela «Ala Liberal», mantendo os traços essenciais do regime, apesar de algumas modificações formais, como a atribuição da designação de Estados às províncias ultramarinas. E a própria Lei de Imprensa, que tantas esperanças suscitaram, nada de substancial alterou ao regime de censura prévia até aí vigente. Acentua-se, ao mesmo tempo, a repressão sobre o movimento estudantil e o movimento sindical, bem como sobre o cooperativismo cultural. Os sectores liberais, em aliança com franjas moderadas da oposição democrática, tentam ainda a sua cartada com a criação, em Novembro de 1970, da Sociedade de Estudos para o Desenvolvimento Económico e Social (SEDES), logo apelidada de «cavalinho de Tróia» pelo deputado salazarista Casal-Ribeiro. 
O grosso da oposição democrática irá, porém, denunciar o «fracasso do reformismo» marcelista num manifesto difundido em Maio de 1972 e encara com simpatia as primeiras acções de violência armada da Acção Revolucionária Armada (ARA) e das Brigadas Revolucionárias, ligadas à dissidência de esquerda que se apossara da Frente Patriótica de Libertação Nacional em Argel. 
Em Agosto de 1972, Caetano perde a derradeira oportunidade de se assenhorear do poder, neutralizando os «ultras» do regime, ao renunciar à possibilidade de fazer eleger presidente da República uma personalidade que o apoiasse no esforço reformador. Ao aceitar a reeleição de Tomás, assina a sua definitiva capitulação, que precipita o rápido processo de degenerescência final do regime . De nada valerão as tentativas de revitalização da Ala Liberal , na perspectiva das eleições de 1973, com o objectivo de a transformar numa «associação cívica de massas». A «Ala Liberal» abandonara entretanto a Assembleia Nacional e fazia do novo semanário Expresso, fundado e dirigido por Pinto Balsemão, o seu principal órgão de intervenção. Nele se chegou a defender a criação de uma «terceira força» entre o regime e a oposição tradicional de esquerda, com base em sectores sociais «incipientemente politizados» e «pragmáticos» e nos desiludidos dos extremos colocados em «pontos estratégicos» da vida pública. 
O encontro político organizado com esse fim em Julho de 1973 não teve, porém, qualquer sequência, dado o clima político cada vez mais radicalizado que então se vivia, mesmo nos sectores católicos, como ficara provado com o célebre caso da “vigilia da Capela do Rato”.
O próprio Caetano apelidará de «ingénuos» os partidários de terceiras vias (discurso de 24.6.1973), para um mês depois reconhecer em entrevista a uma revista estrangeira que decidira pôr «um travão ao processo de liberalização em Portugal» (18.7.1973). 
As eleições de Outubro de 1973 decorrerão, por conseguinte, nos moldes habituais, com a diferença de a oposição se mostrar desta vez bem mais unida, o clima intimidativo supera o de 1969. A partir do Verão de 73, porém, surgem os primeiros sinais visíveis do profundo descontentamento que começara a lavrar no seio dos quadros intermédios das Forças Armadas. Está na forja o Movimento dos Capitães. A conjunção entre a contestação ao imobilismo da política colonial do marcelismo e reivindicações de carácter profissional revelar-se-á explosiva. Nem a cedência a estas últimas com um concomitante aumento de vencimentos, no princípio de 1974, conseguirá suster a movimentação em curso, cuja dimensão política se toma então cada vez mais evidente. A publicação, com o beneplácito do general Costa Gomes , chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas, do livro Portugal e o Futuro do general António Spínola , com a defesa de teses federalistas para a solução da questão colonial, acentua o isolamento do governo de Caetano em relação às Forças Armadas. O presidente do Conselho, sentindo-se acossado, num primeiro momento chega a propor a entrega do poder àqueles dois chefes militares, que, prudentemente, o recusam. 
Tenta então um endurecimento de posições, mobilizando as instituições e a hierarquia militar em seu favor. A 11.3.1974 comunica ao presidente da República o apoio da ANP. Três dias depois é a vez dos oficiais generais dos três ramos das Forças Armadas manifestarem o seu apoio ao Presidente da República, com excepção do CEMGFA e so seu vice, Costa Gomes e Spínola, que são de imediato demitidos das suas funções. 
No dia seguinte nomeia novos ministros para as pastas económicas numa tentativa de contrariar os preocupantes índices económicos do último ano, com a taxa de inflação a rondar os 30%. E a 16, o Governo consegue fazer face à primeira tentativa sediciosa de oficiais ligados ao Movimento dos Capitães. O regime estava, porém, já ferido de morte. A própria Igreja Católica dava sinais de afastamento crítico. O poder marcelista era um poder com pés de barro. A revolução que o derrubaria e, com ele, o próprio regime, estava à porta. 

Em síntese, podemos afirmar que a guerra colonial não só acabou por impedir uma evolução liberalizadora e controlada das instituições, como conduziu o regime ao seu suicídio político, abatido que foi pelo seu próprio braço armado. 
Caetano não soube ou não conseguiu ultrapassar o impasse colonial, apesar da demarcação que ainda ensaiou relativamente às teses integracionistas assentes num patriotismo místico-geográfico (Portugal do Minho a Timor) e no mito do «mercado único português». Como resumiu Sottomayor Cardia, e apesar de alguns êxitos obtidos nos domínios económico, social e educativo, o marcelismo não conseguiu ser mais do que «um salazarismo disfarçado que rapidamente se tornou salazarismo desorientado» (Salazar, Abril e o Presente, 1985).

PS: fiz aqui ligeiras correções e/ou esclarecimentos;

Autor: LI ; Sp ; 12°/Tale, L F P, base Wikipédia

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Genesis, por Sebastião Salgado

A decorrer na Maison Européenne de la Photographie, em Paris (rue de Fourcy, Paris IV)...
A exposição do artista brasileiro Sebastião Salgado, intitulada Genesis, relata atravès do prisma fotográfico o nosso planeta, a sua beleza, as suas fragilidades também. Até ao dia 05 de janeiro de 2014...



quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Efemérides da História Lusófona: #4 A proclamação da República Brasileira (15 de novembro de 1889)

– Antecedentes –

     No dia 15 de novembro de 1889, o regime monárquico imperial é derrubado no Brasil instaurando a Primeira República.
A última fotografia da família imperial brasileira, por Otto Hees, 1889.


     Nos anos que antecederam este momento revolucionário, o clima político fora propício a este acontecimento. A governação de D. Pedro II, imperador do Brasil, está em boa parte na origem da crise política que se instala. Por um lado, não tivera descendentes masculino o que colocava a sucessão ao trono nas mãos da sua filha, D. Isabel. Casada com um príncipe francês, Gastão de Orleães, conde d’Eu, e neto do rei de França Luís Filipe, temera-se que o trono brasileiro passasse para as mãos de estrangeiros. Por outro lado, o descontentamento crescia na população. Durante a Guerra do Paraguai (1864-1870), muitos escravos tomaram parte no conflito nas fileiras dos exércitos da Tríplice-Entente (Brasil, Argentina, Uruguai). Uma vez o conflito findado temia-se, por pressão dos antigos amos, que voltassem à sua antiga condição servil. A guerra, devido aos seus elevados custos financeiros, agravou também as dificuldades financeiras sentidas pelo Brasil no final do século XIX, com uma inflação acrescida que deteriorava as condições de vida dos brasileiros, em particular das classes médias. A 13 de maio de 1888, a Lei Áurea decreta o fim da escravatura em terras brasileiras. Na esperança de alcançar indemnizações, os antigos esclavagistas aderem à causa republicana, fervente opositor ao regime monárquico.
     O contexto político, social, económico, mas também religioso com profundas divergências entre a instituição clerical e o poder político, abre as portas a transformações drásticas no Brasil.



– O golpe militar –
     Sob o comando do Marechal Deodoro da Fonseca, o golpe de estado inicia-se. O quartel-general do Rio de Janeiro, assim como o Ministério da Guerra, são ocupados sem grande resistência. Os destacamentos ali presentes, chefiados pelo general Floriano Peixoto, recusam-se a disparar sobre os insurrectos. No seguimento, e já na tarde de 15 de novembro, o Marechal Deodoro da Fonseca proclama, no Rio de Janeiro, a Primeira República Brasileira (apelidada de “República Velha” em oposição ao período republicano seguinte, a “República Nova”). O momento solene tem lugar na Praça da Aclamação (atual Praça da República no Campo de Santana).
A proclamação da República, por Benedito Calixto, 1893, Pinacoteca Municipal de São Paulo.


– Os símbolos do novo regime –
     No seguimento da proclamação, é organizado um governo provisório chefiado por Deodoro da Fonseca. E escolhida uma primeira bandeira nos moldes do estandarte dos Estados Unidos mas que, no entanto, irá permanecer durante quatro dias. No dia 19 de novembro de 1889, surge o atual estandarte (atualizado várias vezes desde então com o acréscimo de várias estrelas referentes aos novos Estados federais). Este dia de 19 de novembro é conhecido, no Brasil, como do Dia da Bandeira.
Bandeira da República Brasileira de 15 a 19 de novembro de 1889.

     É também composto um hino republicano celebrando a proclamação da República (o qual fora inicialmente pensado como hino nacional brasileiro).

Hino à Proclamação da República (1890)
Letra: Medeiros e Albuquerque
Música: Leopoldo Augusto Miguez
Seja um pálio de luz desdobrado.
Sob a larga amplidão destes céus
Este canto rebel que o passado
Vem remir dos mais torpes labéus!

Seja um hino de glória que fale
De esperança, de um novo porvir!
Com visões de triunfos embale
Quem por ele lutando surgir!

Liberdade! Liberdade!
Abre as asas sobre nós!
Das lutas na tempestade
Dá que ouçamos tua voz!

Nós nem cremos que escravos outrora
Tenha havido em tão nobre País...
Hoje o rubro lampejo da aurora
Acha irmãos, não tiranos hostis.

Somos todos iguais! Ao futuro
Saberemos, unidos, levar
Nosso augusto estandarte que, puro,
Brilha, avante, da Pátria no altar!

Liberdade! Liberdade!
Abre as asas sobre nós!
Das lutas na tempestade
Dá que ouçamos tua voz!

Se é mister que de peitos valentes
Haja sangue em nosso pendão,
Sangue vivo do herói Tiradentes
Batizou este audaz pavilhão!

Mensageiros de paz, paz queremos,
É de amor nossa força e poder
Mas da guerra nos transes supremos
Heis de ver-nos lutar e vencer!

Liberdade! Liberdade!
Abre as asas sobre nós!
Das lutas na tempestade
Dá que ouçamos tua voz!

Do Ipiranga é preciso que o brado
Seja um grito soberbo de fé!
O Brasil já surgiu libertado,
Sobre as púrpuras régias de pé.
Eia, pois, brasileiros avante!
Verdes louros colhamos louçãos!
Seja o nosso País triunfante,
Livre terra de livres irmãos!

Liberdade! Liberdade!
Abre as asas sobre nós!
Das lutas na tempestade
Dá que ouçamos tua voz!




























Alegoria da República, por Manoel Lopes Rodrigues, 1896, Museu de Arte da Bahia.
A atual configuração dos Estados federados na bandeira brasileira.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

História 3ème/1ère - Estudo de obra: "A Guerra" - Otto Dix

Estudo de uma obra de arte: A Guerra, de Otto Dix

Tema: A Primeira Guerra Mundial

A Guerra, de Otto Dix.
Pintura a têmpera, suporte de madeira (1929-32);
painel central: 204 X 204 cm, painéis laterais 204X 102cm.
Museu de Belas Artes de Desde, Alemanha.

DESCRIÇÃO PORMENORIZADA:
Soldados a caminho da frente de batalha
Campo de batalha destruído, carnificina, a “terra de ninguém”, um só soldado escapa usando uma máscara.
Regressando da frente, um sobrevivente (O.Dix, autoretrato) trazendo feridos.
Soldados mortos, como num caixão. O painel de baixo dá aos mortos o repouso e a sepultura que os combates negam.
Bubões, referência à peste negra e ao quadro de Jerónimo Bosch, A tentação de Santo Antão, séc. XV.


Otto Dix deixa ver aqui a influência dos trípticos religiosos da Idade Média.
Tríptico dos Sforza, de Rogier Van der Weyden, meados do séc. XV

PROBLEMÁTICA: Como é que o artista nos transmite a ideia da “violência de massa ?”

1. Biografia :
Otto Dix,1891-1969, pintor alemão influenciado pelo expressionismo; participou na Primeira Guerra Mundial e combateu na frente de batalha, nas trincheiras, em França, e na frente oriental, sendo pois um testemunho direto e ocular. Traduziu essa experência combatente nos seus trabalhos. A partir de 1919, a sua obra começa a mostrar aspetos antimilitaristas e de recusa da guerra. Com a chegada dos nazis ao poder, a partir de 1933, os seus trabalhos são considerados “degenerados” e proibidos. Conhece a consagração, nacional e internacional, depois de 1945. 

2. Vocabulário:
Expressionismo: Movimento artístico nascido na Alemanha no início do séc. XX onde a preocupação maior é a intensidade da expressão, opondo-se assim ao impressionismo; os artistas exprimem as suas emoções através dos temas escolhidos e das cores. Além da pintura, esta corrente estende-se também à música, literatura ou ao cinema, em particular nos anos vinte (os “loucos anos 20”!) e numa Alemanha vencida e humilhada pela derrota na Grande Guerra. 
Têmpera: Técnica bastante antiga que utiliza uma cor algo diluida com água, que se vai tornando mais espessa com a adição de goma ou ovo. 
Retábulo: Pintura sagrada em voga sobretudo na época medieval. Otto Dix terá sido influenciado em particular por Matthias Grünewald e o seu retábulo de Issenheim (1512-1516; Museu de Unterlinden, Colmar). Pretende-se assim dar um dimensão quase sagrada com a morte e a degradação dos corpos omnipresente. 
Tríptico: Pintura em três partes, com um painel central fixo e dois laterais que se podem fechar; pode apresentar um painel inferior: a pradela. 

3. Técnica:
Tríptico inspirado pelos retábulos medievais. Usa a têmpera que permite uma melhor representação das transparências. O artista efetuou uma longa preparação com desenho a lápis, uma primeira versão a aguarela e alguns cartoons

4. Mensagem
Versão contemporânea do sofrimento humano, a guerra, através do martírio dos soldados. A precisão e os detalhes mostram o horror da guerra e dão uma ideia quase irreal da mesma, acentuando o seu aspeto atroz e absurdo. 
Uma hipótese de interpretação do quadro frequentemente avançada é a de um ciclo sem fim no qual a obra fecharia os soldados e os espetadores: partida/combate/regresso/repouso/partida/combate/regresso/repouso/partida /... 

5. Questionário
Observando atentamente o quadro de Otto Dix, responda de forma breve às seguintes questões .


a) Apresente a obra. 

b) Quando foi realizada a obra? Que período evoca? 
c) Descreva as diferentes partes do tríptico. Mostre que a pintura reflete a experiência do seu autor. 
d) Qual é a mensagem que o artista nos quer transmitir?

e) Como é que esta obra nos mostra a violência da guerra?
Os efeitos do gás
Gassed, de John Singer Sargent, 1919
Combates no alto do Hartmannswillerkopf, de F.Ch. Baude
f) Descreva o quadro de Jonh Singer Sargent
g) Que ideia lhe é dada pelo quadro de F. Ch. Baude?
i) Compare a obra de Otto Dix com as duas outras aqui sugeridas.