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quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

6ème - A Civilização Egípcia: o papiro

O PAPIRO, A PLANTA QUE SERVE PARA TUDO


     O papiro serve para confecionar as folhas de papel sobre as quais os escribas escrevem. Mas esta planta, símbolo do Egito dos faraós, tem inúmeras utilizações.



Onde crescem os papiros?

Desenvolvem-se nas zonas pantanosas. São particularmente abundantes no delta do Nilo. As suas hastes, de forma triangular, têm a grossura de um braço. Atingem três a quatro metros de altura. Na extremidade, as folhas formam uma larga corola.
A planta do papiro (cyperus papyrus)


A colheita
Começa quando as hastes são suficientemente altas mais ainda flexíveis. Os operários cortam os papiros sem arrancar as raízes. Trabalham na lama, tendo cuidado com as cobras, crocodilos e hipopótamos. Reunidos em molhos, os papiros são em seguida transportados no dorso de bois ou de burros.
Os molhos de papiro eram usados no fabrico de barcas.
Útil para a confeção de barcas
Não há florestas no Egito e a madeira importada é reservada à construção de grandes navios. As barcas são portanto fabricadas com feixes de papiros ligados entre si. As velas e os cordames são também tecidos com papiros.

Como se obtém papel a partir de papiros?
A casca é retirada e a medula (o coração) é cortada em finas lamelas (1 e 2), que são esmagadas com um maço. Depois de terem sido demolhadas em água para amolecerem, as finas tiras obtidas são estendidas a direito e depois cobertas com uma segunda camada disposta no sentido contrário (3). A folha é em seguida abundantemente molhada e bem martelada (4 e 5). Dessa forma, a seiva da planta cola solidamente as tiras entre si. Resta apenas deixar secar esta folha para que ela esteja pronta para ser utilizada (6). As folhas são depois muitas vezes reunidas umas às outras a fim de formarem rolos.
A preparação das folhas de papiro
Um papel resistente
A folha de papiro tem numerosas qualidades: é flexível, enrola-se sem se rasgar, não absorve a tinta e conserva-se muito tempo. Mas essas belas folhas são caras porque demoram muito a fabricar. Os escribas só as utilizavam para copiar textos importantes. Foram encontrados papiros perfeitamente conservados após vários milhares de anos.

Papiros para iluminar, para vestir, para mobilar e para comer!
As hastes secas servem para alimentar o fogo ou construir cabanas. A medula é utilizada como mecha de archote para iluminar. Com a casca, os Egípcios entrançam cestos, esteiras, saiotes, sandálias, gaiolas e os passadores. As hastes jovens são comidas em salada, a medula é assada no forno. Em contrapartida, não se podem dar as folhas aos animais porque são cortantes.

O papiro na arte
Os talhadores de pedra inspiraram-se na forma dos papiros para desenharem e esculpirem as colunas dos templos. Os artistas egípcios representam-nos muitas vezes nas suas pinturas e esculturas.
Colunas com capitéis em forma de papiro (Templo de Hórus, Edfu)
Um símbolo de juventude
O papiro é o símbolo do rejuvenescimento, juventude e da alegria. Faz parte das oferendas apresentadas à divindade com cabeça de vaca, Hator, deusa associada à alegria e ao amor.

ALGUMAS PERGUNTAS
1. No Egito, onde crescem os papiros?
2. Descreve, com palavras tuas, a planta do papiro.
3. Indica três utilizações dadas ao papiro.
4. Porque razão os Egípcios utilizam papiro para construir os seus barcos?

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

6ème - A Civilização Egípcia: o além

A MUMIFICAÇÃO

     Os Egípcios acreditam que uma outra vida começa depois da morte. Mas para que o defunto permaneça imortal, o seu corpo deve conservar a aparência que tinha quando estava vivo.
O embalsamamento. Por vezes, um dos sacerdotes que preside ao embalsamamento usa a máscara de Anúbis.

Por que o corpo deve conservar a sua aparência?
Os Egípcios acreditam que todos os homens possuem uma alma, o Ba, e um duplo invisível, o Ka. Depois da morte, o Ba e o Ka abandonam regularmente o corpo do defunto, viajam e depois regressam ao cadáver. Se o corpo se decompõe, o Ba e o Ka vagueiam sem cessar à sua procura e o morto não pode aceder à vida eterna no Além.

Como é conservado o corpo?
Os Egípcios tinham-se apercebido que quando os corpos dos seus defuntos eram enterrados no deserto, o calor da areia secava a carne. O cadáver conservava assim a sua aparência e não se decompunha. A arte de embalsamar e de mumificar consiste em reproduzir esse fenómeno natural utilizando natrão, um sal que se encontra em abundância no solo do Egito.

A preparação do corpo
O embalsamador extrai o cérebro do crânio com o auxílio de um ferro recurvado que introduz pelas narinas. Por uma incisão feita no ventre retira as vísceras: os pulmões, o fígado, o estômago e os intestinos. Cada um desse órgãos é cuidadosamente envolvido num pano de linho e depositado num vaso canopo. O coração, que é considerado como a parte do corpo na qual se situam os pensamentos e os sentimentos, é retirado, embalsamado e colocado de novo no tórax. Às vezes, é substituído por um escaravelho de pedra em forma de coração.

Vasos canopos. Museu do Louvres, França.

A mumificação
A desidratação do corpo dura cerca de 70 dias, durante os quais o corpo é colocado num banho de natrão. Esse sal mineral retira a água contida na carne. Quando o cadáver está suficientemente seco, o embalsamador limpa-o com óleo, pomadas, especiarias e resina de pinheiro. Enche a cabeça e o corpo de linho e serradura de madeira e depois fecha o corte feito no lado e cobre-o com uma folha de cera de abelha. No lugar dos olhos são colocados pedaços de linho, cera ou pequenas cebolas. Os dedos das mãos e dos pés são por vezes protegidos com folhas de ouro.



Amuletos nas ligaduras
A múmia é em seguida envolta num pano e depois rodeada por ligaduras de linho, unidas umas às outras por outras tiras mais estreitas. Durante esta operação, são introduzidos amuletos nas ligaduras em determinados locais do corpo. O rosto é coberto por uma máscara com a efígie do defunto. A dos faraós é em ouro, os egípcios mais modestos contentam-se com ligaduras de linho e folhas de papiro coladas umas às outras e cobertas de gesso. São colocadas flores e folhas de palmeira sobre o corpo.

Múmia de Ramsés II. Museu do Cairo, Egito. Encontrada no século XIX em perfeito estado de conservação, a múmia de Ramsés II,  vítima de um fungo de cogumelo ao contacto do ar moderno, quase se destruía. Foi salva pela ciência em 1977. 
Os sarcófagos
Durante o Império Antigo, os sarcófagos têm uma forma retangular e são talhados em madeira, no entanto os dos faraós são de granito. A partir do Império Médio, têm a forma de um corpo humano e são construídos com uma espécie de cartão feito com folhas de papiro.

Sarcófago secundário do faraó Tutancamon. Museu do Cairo, Egito.

A PESAGEM DA ALMA

     Os Egípcios pensam que, para aceder ao reino dos mortos, o defunto deve passar pela temível prova da pesagem da alma. Se o seu coração for mais pesado do que a pluma de Maet, será devorado.

O tribunal de Osíris
Conduzido pelo deus Hórus, o defunto é levado junto de Osíris. Sentado no seu trono e rodeado por 42 juízes, Osíris, o deus do Além, preside à cerimónia da pesagem da alma. O defunto deve em primeiro lugar jurar que não cometeu nenhum pecado no decurso da sua vida, que nunca fez mal, que nunca roubou,… Tot, o deus dos escribas, anota as suas respostas.

A pesagem do coração
Para saber se o defunto disse a verdade, o seu coração é colocado num dos dois pratos de uma balança. No outro é colocada a pluma de Maet. Anúbis vigia a pesagem. Se os pratos se equilibram, está provado que o defunto agiu bem. O coração é-lhe restituído e pode entrar no reino dos mortos. Se, pelo contrário, a balança pende para o lado do coração, Ammut, monstro com cabeça de crocodilo, corpo de leão e patas traseiras de hipopótamo, apodera-se do coração e devora-o. O defunto sofre então o pior dos castigos, não chegará ao Além.

O tribunal de Osíris. Papiro de Hunefer. Museu Britânico, Inglaterra.
O que acontece ao defunto no reino dos mortos?
Durante o dia, permanece no seu túmulo. Entretanto, o seu Ba (alma) viaja e visita a sua família, À noite, o defunto sobe para a barca de Ré e de manhã regressa ao seu túmulo, alimenta-se e repousa. Todos os Egípcios desejam atingir o reino de Osíris depois da sua morte.



ALGUMAS PERGUNTAS
1. Explica, por palavras tuas, como são conservados os corpos dos defuntos.
2. Para que servem os vasos canopos?
3. Descreve, com as tuas próprias palavras, a cerimónia da pesagem da alma.

6ème - A Civilização Egípcia: a vida quotidiana

VESTIR-SE, LAVAR-SE E MAQUILHAR-SE

     Os Egípcios vestem-se ligeiramente: um saiote para os homens, um vestido para as mulheres. Ricos ou pobres, usam jóias que são acima de tudo amuletos.

Vestuário de linho branco
O vestuário é confecionado em linho. Trata-se de um tecido fresco quando está muito calor e quente quando faz mais frio. A lã é usada muito raramente porque é de origem animal e considerada impura. O tecido é quase sempre branco: os Egípcios utilizam, com efeito, poucos corantes. Alegram o seu aspeto com colares de flores, jóias e contas cosidas.
A moda egípcia

Saiotes e vestidos
Os homens vestem geralmente um saiote seguro na cintura por um simples cordão para os mais pobres e por um belo cinto para os mais abastados. Usam por vezes saias e túnicas. As mulheres envergam vestidos muito justos, presos nos ombros por finas alças. No Império Novo, os vestidos são mais largos e cobertos por uma túnica. As indumentárias de festa distinguem-se pela delicadeza do seu tecido quase transparente e pela elegância das suas pregas.

Pés descalços ou com sandálias?
Os Egípcios só se calçam no interior das casas. No exterior, andam quase sempre descalços, com as sandálias de papiro, ráfia ou junco presas ao cinto ou transportadas por um servo.

Como se lavam os Egípcios?
Devido ao forte calor, os Egípcios lavam-se todos os dias. Nas casas mais ricas, é reservado um compartimento para a sua higiene. O sabão não existe, os Egípcios utilizam um sal extraído do solo ou uma mistura de cinzas e argila. Depois de se terem lavado, homens e mulheres nutrem o corpo com pomadas que amaciam a pele e perfumam-se com essências vegetais.

A arte do penteado
Os homens barbeiam-se com cuidado e mandam cortar o cabelo regularmente. No Império Novo, as mulheres têm os cabelos compridos. Nos dias de festa, tanto uns como outros usam perucas perfumadas e compostas por cabelos verdadeiros ou fibras vegetais.

Pente em marfim do faraó Ouadji. Museu do Cairo, Egito.
Uma maquilhagem cuidada
Os homens e as mulheres, e às vezes mesmo as crianças, maquilham-se. Desenham o contorno dos olhos com um traço de khol negro e pó verde extraído da malaquite (um mineral dessa cor). As faces e por vezes os lábios são pintados de vermelho obtido a partir de pós naturais misturados com óleo. A hena, fabricada com uma planta seca e reduzida a pó, é utilizada para tingir os cabelos, as unhas, a palma das mãos e a dos pés. Estas maquilhagens exigem substâncias, por vezes raras, provenientes de longe e que são caras.

As jóias
Todos os Egípcios se adornam com jóias que são supostas protegê-los contra os perigos da vida e, em especial, da má sorte. Os colares mais simples são constituídos por um cordão com uma pequena concha. Os mais ricos usam jóias muito delicadas adornadas com pedras preciosas (lápis-lazúli, turquesa, ametista,…), marfim, prata ou contas de vidro. Os ourives cinzelam anéis, pulseiras, argolas, brincos,...
Colar de Senefer. Museu do Louvres, França.

ALGUMAS PERGUNTAS
1. Com que tipo de material eram confecionadas as roupas dos Egípcios?
2. Explica, por palavras tuas, como se lavavaml os Egípcios.
3. Nos dias de festa, que tipo de penteado usavam?
4. Que materiais são usados pelos ourives?

6ème - A Civilização Egípcia: os hieróglifos

OS HIERÓGLIFOS, IMAGENS PARA ESCREVER
     Os Egípcios não inventaram a escrita. Esta nasceu por volta de 3300 a.C., na Mesopotâmia, a leste do Egito. Os hieróglifos egípcios surgem um pouco mais tarde, cerca de 3100 a.C.

Imagens retiradas da vida quotidiana
A escrita egípcia é constituída por desenhos chamados hieróglifos. Cada um deles foi criado a partir de elementos presentes na vida: um homem, um olho, um pato, uma pena, um junco, um barco, a água, o céu, uma corda,… Durante o Império Antigo, existem cerca de 750 sinais diferentes. Com o correr dos séculos, os escribas acrescentam-lhes novos. Na época de Cleópatra, atingem o número de 2500!


Uma leitura complicada
A escrita egípcia é difícil de ler porque os hieróglifos podem indicar um sentido ou um som. Uma mesma figura pode ser utilizada de várias maneiras. O desenho de um pato, por exemplo, pode querer significar a palavra pato ou um som que entra na composição de uma palavra, mas pode também fazer parte de uma expressão.
Hieróglifos, Templo de Kom Ombo, Egito.

Como decifrar um sinal?
Par saber se um sinal é utilizado como um som ou como uma palavra, os escribas colocam o desenho de um pequeno bastão ao Aldo do sinal: indica que o hieróglifo do pato, por exemplo, representa a palavra pato. Se não houver bastão, é um som. Mas há outra dificuldade: o sinal do pato, associado a outro sinal, pode modificar o sentido.

O sentido da leitura
Outro problema da escrita egípcia: escreve-se e lê-se da esquerda para a direita, ou o inverso, e de cima para baixo, ou o contrário! Para detetar o sentido da leitura é necessário observar como são desenhados os sinais.

Uma escrita sagrada
De acordo com os Egípcios, teria sido o deus Tot a trazer a escrita aos homens. Os hieróglifos têm portanto um caráter sagrado. São reservados aos textos religiosos que figuram nos templos e nos túmulos.

Os hieróglifos decifrados
Cerca de 400 d.C., os templos são fechados. Os sacerdotes desaparecem. Mas ninguém sabe ler a escrita sagrada dos Egípcios. É necessário esperar quinze séculos e a descoberta da Pedra de Roseta… Um oficial de Napoleão Bonaparte descobre esta pedra em 1799, no porto de Roseta, no delta do Nilo. Esta estela comporta um decreto do faraó Ptolomeu V. O texto está redigido em duas línguas, o grego e o egípcio, e em três escritas, o grego antigo, os hieróglifos, e a escrita demótica (uma simplificação da escrita hieroglífica). Em 1822, Jean-François Champollion, um especialista da civilização egípcia, apresenta uma tradução do texto contido na pedra, e por conseguinte uma interpretação dos hieróglifos egípcios. Champollion usa para isso uma cartela real de Ramsés II. Compreende então que os hieróglifos podem ser utilizados pelo seu símbolo ou pelo seu som.
A pedra de Roseta. Museu Britânico, Inglaterra.
Jean-François Champollion, por Auguste Bartholdi, 1875, Collège de France, Paris.


ALGUMAS PERGUNTAS

1. O que indicam os hieróglifos?
2. Explica como são lidos os hieróglifos?

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Escravos e escravatura em Portugal

Punição de um escravo
(gravura de Jean-Baptiste Debret, in Voyage pittoresque et historique au Brésil, 1834-39) 
CLIQUE AQUI
História a História: "Escravos e escravatura em Portugal"
(ou em vimeo.com/145862037)

PERGUNTAS:
1. Indica a data e o local da primeira partilha de escravos em Portugal.
2. Quais eram as três praças de mercado usadas, em Lisboa, para o comércio de escravos.
3. Que grupos populacionais estavam proibidos de possuir escravos em Portugal? Porquê?
4. Qual é a percentagem de escravos apontada pelos historiadores em Lisboa, no século XVI.
5. Qual é a origem da rua do Poço dos Negros?
6. O que é uma carta de alforria?
7. O que significa a alforria testamentária?
8. Quem, no século XVI, ordenou a conversão dos escravos ao Cristianismo?
9. Quem é o autor das primeiras leis abolicionistas, em Portugal? Em que século?
10. Refere a data da abolição total da escravatura em Portugal. E no Brasil?

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Efemérides da História Lusófona: #3 A independência de Angola (11 de novembro de 1975)


     No dia 11 de novembro de 1975, Angola proclama a sua independência. Se este dia marca o nascimento de um novo país, ao mesmo tempo que o encontro de uma nação com um Estado ainda por criar, assinala também o término da presença portuguesa. Em 1485, Diogo Cao alcançara as margens do rio Congo onde deixara a marca da sua passagem (ver Pedra de Ielala). Cerca de cinco séculos depois chega ao fim uma história comum, cheia de sofrimento, dramas, injustiças mas também de cooperação, enriquecimento mútuo, interculturalidade e de humanidade.

Brasão da Província Ultramarina de Angola

     É António Agostinho Neto, médico, escritor e líder do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), quem proclama solenemente a independência do país.
Agostinho Neto: «o MPLA proclama solenemente perante a África e o Mundo, a independência de Angola», 11/11/1975

Discurso de proclamação da independência
     No contexto do movimento de libertação de Angola, os escritores, e em particular os poetas, tiveram um papel muito importante na luta contra o colonizador português; vozes que denunciaram a condição do povo negro, a descriminação de que era alvo e todo o seu sofrimento.
     Deixemos a palavra aos poetas deste nosso povo irmão:

ADEUS À HORA DA LARGADA (1951) António Agostinho Neto
Minha mãe
(todas as mãe negras
cujos filhos partiram)
tu me ensinaste a esperar
como esperaste nas horas difíceis

Mas a vida
matou em mim essa mística esperança

Eu já não espero
sou aquele por quem se espera

Sou eu minha Mãe
a esperança somos nós
os teus filhos
partidos para uma fé que alimenta a vida

Hoje
somos as crianças nuas das sanzalas do mato
os garotos sem escola a jogar a bola de trapos
nos areias ao meio-dia
somos nós mesmos
os contratados a queimar vidas nos cafezais
os homens negros ignorantes
que devem respeitar o homem branco
e temer o rico
somos os teus filhos
dos bairros de pretos
além aonde não chega a luz elétrica
os homens bêbedos a cair
abandonados ao ritmo dum batuque de morte
teus filhos
com fome
com sede
com vergonha de te chamarmos Mãe
com medo de atravessar as ruas
com medo dos homens Bandeira de Angola
nós mesmos

Amanhã
entoaremos hinos à liberdade
quando comemorarmos
a data da abolição desta escravatura

Nós vamos em busca de luz
os teus filhos Mãe
(todas as mães negras
cujos filhos partiram)
Vão em busca de vida.

CONSCIENCIALIZAÇÃO (1951) António Agostinho Neto
Medo no ar!

Em cada esquina
sentinelas vigilantes incendeiam olhares
em cada casa
se substituem apressadamente os fechos velhos
das portas
e em cada consciência
fervilha o temor de se ouvir a si mesma

A História está a ser contada
de novo

Medo no ar!

Acontece que eu
homem humilde
ainda mais humilde na pele negra
me regresso Àfrica
para mim
com os olhos secos.

PRELÚDIO (1951) ALDA LARA

(para a Lydia – minha velha ama negra)

Pela estrada desce a noite
Mãe-Negra, desce com ela...

Nem buganvílias vermelhas,
nem vestidinhos de folhos,
nem brincadeiras de guisos,
nas suas mãos apertadas.
Só duas lágrimas grossas,
em duas faces cansadas.

Mãe-Negra tem voz de vento,
voz de silêncio batendo
nas folhas do cajueiro...

Tem voz de noite, descendo,
de mansinho, pela estrada...

Que é feito desses meninos
que gostava de embalar?...

Que é feito desses meninos
que ela ajudou a criar?...
Quem ouve agora as histórias
que costumava contar?...

Mãe-Negra não sabe nada...
Mas ai de quem sabe tudo,
como eu sei tudo
Mãe-Negra!...

Os teus meninos cresceram,
e esqueceram as histórias
que costumavas contar...

Muitos partiram p'ra longe,
quem sabe se hão-de voltar!...

Só tu ficaste esperando,
mãos cruzadas no regaço,
bem quieta bem calada.

É a tua a voz deste vento,
desta saudade descendo,
de mansinho pela estrada…



O RITMO DO TANTÃ (1970) António Jacinto
O ritmo do tantã não o tenho no sangue
nem na pele
nem na pele
tenho o ritmo do tantã no coração
no coração
no coração
o ritmo do tantã não tenho no sangue
nem na pele
nem na pele
tenho o ritmo do tantã sobretudo
mais do que pensa
mais do que pensa
Penso África, sinto África, digo África
Odeio em África
Amo em África
Estou em África
Eu também sou África
tenho o ritmo do tantã sobretudo
no que pensa
no que pensa
penso África, sinto África, digo África
E emudeço
dentro de ti, para ti África
dentro de ti, para ti África
África
           África
                       África.

Efemérides da História Lusófona: #2 O fim da "Grande Guerra" (11 de novembro de 1918)

– Portugal entre os vencedores –
A Primeira Guerra Mundial. blocos e frentes de combate
     Em 1910, quando a República foi implantada em Portugal, os conflitos entre as maiores potências europeias tinham-se agravado. A Inglaterra, a França e a Alemanha disputavam territórios em África e, na Europa, a Alemanha tentava tornar-se a potência dominante. Destes conflitos surgiram dois blocos de potências adversárias – de um lado, a Inglaterra, a França e o Império Russo: a Tríplice-Entente; do outro, o Império Alemão, o Império Austro-Húngaro e o Reino de Itália: a Tríplice-Aliança.
A Tríplice-Aliança, Le Petit Journal, 25/10/1896
Alegoria da Tríplice-Entente (cartaz russo de 1914)
     Em 1914, o assassínio do arquiduque Francisco Fernando, herdeiro do trono austro-húngaro, fez desencadear uma guerra entre estes dois blocos – seria a Primeira Guerra Mundial. No início, Portugal, aliado da Inglaterra, permaneceu fora do conflito, embora tivesse de defender as suas colónias em África de ataques dos alemães. O governo do novo Partido Democrático (oriundo da cisão do Partido Republicano Português) acreditava que a Triplíce-Entente sairia vencedora. Defendia, por isso, a entrada de Portugal na guerra de modo a garantir, no final do conflito, a posse das suas colónias. Porém, muitos dos oficiais das forças armadas portuguesas não concordavam por acharem que as tropas portuguesas não estavam preparadas para um conflito deste tipo. Em 1916, contudo, os Aliados pediram a Portugal que apreendesse os navios alemães ancorados em portos portugueses. Portugal concordou e a Alemanha declarou-lhe guerra. Foi então decidido criar um corpo militar, em 1916, para ser enviado para a linha da frente de combate, em França – o Corpo Expedicionário Português (CEP).
Partida do CEP para França. Cais de Santa Apolónia em Lisboa, janeiro de 1917.

     Houve, no entanto, muitas dificuldades na formação deste corpo, em homens e em material. Apesar de ter recebido formação militar no tempo recorde de nove meses (o chamado “Milagre de Tancos”, a base militar onde decorreu a formação) e de ter armas fornecidas por Inglaterra, o CEP chegou a França mal preparado, com oficiais pouco motivados e até descontentes com a participação portuguesa nesta guerra. As dificuldades aumentaram já na frente de combate, em França, no início de 1917: o inverno rigoroso, as rações inglesas de que os soldados portuguesas não gostavam e, principalmente, a falta de tropas que rendessem os soldados na linha da frente. Estes problemas contribuíram para que, no dia 9 de abril de 1918, as tropas portuguesas sofressem uma pesada derrota na Batalha de La Lys. A participação de Portugal na Primeira Guerra Mundial, bem como a derrota nesta batalha, contribuíram para agravar a situação delicada do país.
     No dia 11 de novembro de 1918, a Alemanha oficializa a sua rendição com a assinatura do Armistício, em Compiègne (Oise).


– La Lys –
     A Batalha de La Lys teve lugar nas planícies junto ao rio Lys, na região fronteiriça entre a França e a Bélgica (Flandres). Esta região foi uma das principais áreas de combate durante toda a Primeira Guerra Mundial. Os exércitos inimigos (impérios alemão e austro-húngaro de um lado e os Aliados – França, Inglaterra e Bélgica – do outro) estavam dispostos ao longo de linhas fortificadas por trincheiras com vários quilómetros de extensão.
O Corpo Expedicionário Português nas trincheiras de La Lys.

     Na região do Lys havia duas linhas de trincheiras que se estendiam por mais de 55 km: a segunda linha ficava a 200-300 metros da primeira. Uma terceira linha, na retaguarda, já sem trincheiras, ficava entre 500 a 1000 metros da segunda. O CEP defendia uma parte destas linhas fortificadas. A ofensiva alemã aconteceu no dia em que as tropas portuguesas iriam ser rendidas na linha da frente. Comandadas pelo general Gomes da Costa, estavam cansadas, mal equipadas e desmotivadas. Apesar disso, resistiram mais de 24 horas, sofrendo pesadas baixas (mais de 7000 homens, entre mortos, feridos e prisioneiros), mas contribuíram com a sua resistência para que o ataque alemão não tivesse resultados piores para os Aliados.


– A participação brasileira –

     A 4 de agosto de 1914, a República Brasileira declara a sua neutralidade no conflito querendo, assim, garantir a continuidade do comércio das suas mercadorias, principalmente o café. Alastrando-se a vários continentes, a guerra põe em causa a sustentabilidade da economia brasileira que se concentrava maioritariamente na exportação da produção cafeeira. Não sendo um bem de primeira necessidade, o seu comércio diminuiu fortemente. A Inglaterra chega mesmo a proibir a sua importação, em 1917, a fim de libertar espaço no porão dos navios para mercadorias mais essenciais. Contudo, o estado de neutralidade iria alterar-se a partir de 1917. O patrulhamento cerrado dos litorais atlânticos por parte da frota submarina alemã leva a frequentes torpedeamentos de navios mercantes e paquetes. Ficou célebre o caso do paquete britânico Lusitânia, afundado por submarinos da marinha alemã, em 1915. Da mesma forma serão destruídas várias embarcações brasileiras.
O presidente da República do Brasil, Venceslau Brás, declara guerra à Alemanha e aos seus aliados.


     A 5 de abril de 1917, o navio mercante brasileiro Paraná é torpedeado junto à costa normanda e, na sequência, o Brasil quebra as suas relações diplomáticas com o Império Alemão. Seguem-se novos afundamentos: a 20 de maio de 1917, o navio Tijuca (o que leva o governo brasileiro a confiscar dezenas de embarcações alemãs ancoradas em portos brasileiros, como indemnização); a 27 de julho, é a vez do navio a vapor Lapa; a 23 de outubro, o cargueiro Macau, junto à costa espanhola, e que leva ao aprisionamento do comandante do navio. Na sequência, e face à intensa pressão popular que se fazia sentir no Brasil há já vários meses, o presidente da República, Venceslau Brás, declara guerra à Alemanha e aos seus aliados no dia 26 de outubro de 1917. Ainda a 4 de novembro, são torpedeados os navios Guaíba e Acari. São abertos os portos brasileiros às forças navais aliadas, assim como incumbe à marinha brasileira o patrulhamento do Atlântico Sul. Várias forças brasileiras integram as áreas de confronto na frente ocidental: a Força Aérea brasileira junta-se à Royal Air Force britânica, a Marinha atua, em auxílio dos ingleses, nas imediações do Estreito de Gibraltar; uma missão médica é enviada para França para auxiliar o corpo médico aliado; um contingente de oficiais serve junto do Exército francês.
     Nas conferências de paz que assinalam o fim da guerra, em Paris e em Versalhes, a representação brasileira garante reparações de guerra, em particular no que se refere aos navios afundados e às mercadorias destruídas.


– Sidónio Pais –

     Nasceu em 1872, em Caminha. Seguiu a carreira militar, mas viria a tornar-se também professor de Cálculo diferencial na Universidade de Coimbra. Defensor das ideias republicanas desde os tempos de estudante, fez parte de dois governos republicanos após a implantação da República. Em 1912 assumiu o cargo de ministro de Portugal na Alemanha, onde ficou até 1916 (ano em que a Alemanha declarou guerra a Portugal). Foi depois de regressar a Portugal que Sidónio Pais começou a ganhar maior destaque na vida política portuguesa. Tornou-se um dos principais líderes da contestação aos governos republicanos, à sua incapacidade para resolver os problemas dos Portugueses e à constante agitação política.
Sidónio Pais à entrada da Sé de Lisboa por altura do ofício religioso em memória dos soldados portugueses mortos em França.



     No dia 5 de dezembro de 1917, Sidónio Pais liderou um golpe de Estado que derrubou o governo republicano. Instaurou uma ditadura militar e assumiu o cargo de presidente da República. Tornou o regime mais presidencialista e apareceu como o homem forte que iria pôr ordem no país – era a “República Nova”. Inicialmente, teve grande apoio popular, com enormes multidões a recebê-lo onde quer que fosse. Porém, a continuação da participação de Portugal na guerra, as perseguições a opositores do regime e as dificuldades económicas rapidamente acabaram com este “estado de graça”. Voltaram as greves, os protestos e a agitação constante. A 5 de dezembro, um ano depois do golpe, Sidónio Pais escapou a um atentado. Contudo, pouca mais de uma semana depois, ao chegar à Estação do Rossio para embarcar com destino ao Porto, já não conseguiu escapar. As balas disparadas por José Júlio Costa no dia 14 de dezembro de 1918 acertaram no alvo e os tiros foram mortais.


Fontes:
Rúben Castro e Ricardo Ferrand, Grandes datas de Portugal (1096-2007), Texto Editores, Lisboa, 2011.
http://www.grandesguerras.com.br/artigos/text01.php?art_id=68
http://pt.wikipedia.org/wiki/Brasil_na_Primeira_Guerra_Mundial

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Os primeiros aldeamentos neolíticos: Çatal Hüyük

Reconstituição de Çatal Hüyük

     A descoberta deste aldeamento neolítico, situado na região da Anatólia, na atual Turquia, foi uma das descobertas arqueológicas mais significativas de todos os tempos. Datada de 6000 a.C., esta verdadeira cidade teria acolhido até 5000 habitantes repartidos por mais de mil casas. As habitações, feitas de adobes (tijolos de argila), eram retangulares e dispostas lado a lado como favos de mel. O acesso às casas efetuava-se pelo terraço atravès de escadas de madeira.No interior, havia fornos, lareiras e bancos de pedra.


CLICA NA IMAGEM
Reconstituição de uma casa de Çatal Hüyük

Interior de uma habitação neolítica de Çatal Hüyük

As ruínas da cidade de Çatal Hüyük