A lusofonia é um continente imaterial disperso pelos vários continentes - Eduardo Lourenço
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quinta-feira, 5 de janeiro de 2017
quarta-feira, 5 de outubro de 2016
Efemérides da História Lusófona: #8 A proclamação da República (5 de outubro de 1910)
– Viva a República! A Monarquia chega ao fim –
O assassínio do rei D. Carlos e do príncipe herdeiro D. Luís Filipe, em 1908, marcou o princípio do fim da Monarquia em Portugal. O novo rei, D. Manuel II, teve de assumir o trono com apenas 18 anos, não estando preparado para as funções de monarca. D. Manuel tentou acalmar o ambiente tenso e agitado que se vivia. Demitiu João Franco, até então chefe do governo, considerado responsável pela insatisfação que levara ao regicídio e nomeou um governo constituído pelos vários partidos apoiantes da Monarquia. Mas o ambiente político estava cada vez mais instável e os partidos monárquicos envolviam-se em lutas que pareciam não ter fim. Entretanto, o Partido Republicano ganhava apoio e venceu mesmo as eleições para o Município de Lisboa, em novembro de 1908. Os escândalos sobre a atividade dos governos sucediam-se, muitas vezes exagerados pela imprensa simpatizante dos republicanos. Em 1909, o rei procurou obter apoios para o regime monárquico, em especial junto do rei de Inglaterra, Eduardo VII, mas sem sucesso.
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| D. Manuel II, ultimo rei de Portugal |
Por fim, o inevitável aconteceu. No dia 4 de outubro de 1910, às primeiras horas da manhã, começou a revolução. Tropas republicanas ocuparam a Rotunda, em Lisboa, e uma posição próxima do Palácio das Necessidades, no bairro de Alcântara, residência do rei D. Manuel II. Os revoltosos conseguiram também que três navios de guerra ancorados no Tejo aderissem à causa republicana, chegando mesmo a bombardear o palácio real. Depois de um dia de muita ansiedade, no dia 5 os republicanos conseguiram triunfar. A República foi proclamada por José Relvas, um dos principais líderes republicanos, na varando do edifício da Câmara de Lisboa.
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| A proclamação da República da varanda da Câmara Municipal de Lisboa, a 5 de outubro de 1910 |
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| A primeira página do jornal O Século, de 6 de outubro de 1910 |
D. Manuel II tinha partido para Mafra para libertar a sua guarda pessoal para o combate aos revoltosos. Após saber do triunfo da revolução, dirigiu-se à Ericeira, onde embarcou no iate real Amélia. Acompanhando da mãe e da avó, partiu para o exílio para Inglaterra. Tinha acabado a Monarquia em Portugal.
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| Alegoria da proclamação da República Portuguesa. Litografia de Cândido da Silva. |
– Machado Santos –
António Maria de Azevedo Machado Santos nasceu em Lisboa, em 1875, filho de um pequeno comerciante. Em 1891 (o ano da revolta republicana no Porto), alistou-se na Marinha, seguindo a carreira na Administração Naval, chegando a segundo tenente. Politicamente, foi militante de movimentos de esquerda monárquica, aproximando-se depois dos republicanos. Opôs-se ao governo ditatorial de João Franco e tornou-se membro da Carbonária, uma organização secreta que pretendia derrubar o regime monárquico, se necessário pela força das armas. Machado Santos foi um conspirador eficiente que conseguiu mobilizar para a causa republicana vários jovens recrutas. Quando se preparou a revolta de outubro de 1910, era uma das figuras principais. Na madrugada de 4 de outubro, apesar de alguma descoordenação entre os dirigentes republicanos, Machado Santos, após tomar os quartéis de Infantaria 16 e Artilharia 1, dirigiu-se para a Rotundo, no topo da avenida da Liberdade. Durante todo o dia resistiu aos ataques das tropas leais à Monarquia, sendo um dos poucos líderes revoltosos que não abandonou a sua posição. A sua determinação foi fundamental para o triunfo dos republicanos. Na manhã do dia 5 de outubro, foi proclamada a República Portuguesa. Apesar de ser um dos principais responsáveis pelo triunfo republicano, Machado Santos opôs-se depois à maioria dos governos republicanos por não concordar com muitos dos políticos que os integravam. Foi assassinado por rebeldes monárquicos em outubro de 1921.
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| António Machado Santos, herói da revolução de 5 de outubro. |
– A Rotunda –
Este local estratégico na cidade de Lisboa foi da maior importância para o triunfo da revolução republicana. Situada no topo da avenida da Liberdade, a Rotunda controlava o acesso à parte alta da cidade. O plano republicano era reunir às tropas que tomaram a Rotunda os marinheiros dos navios de guerra que aderiram à revolta. O objetivo era isolar as tropas monárquicas do Quartel do Carmo.
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| Membros da Carbonária nas barricadas da Rotunda. |
As primeiras horas da revolta trouxeram notícias pouco animadoras e muitos oficiais republicanos, receando que a operação falhasse, decidiram abandonar a Rotunda. Mas as tropas lideradas por Machado Santos e auxiliadas por muitos civis membros da Carbonária mantiveram-se no local. A resistência a posição da Rotunda foi assim essencial para o triunfo da revolução.
– Os Novos símbolos –
O novo regime republicano escolheu novos símbolos nacionais para marcar a diferença em relação à monarquia. A bandeira azul e branca foi substituída. Um concurso é lançado e várias propostas de bandeira são apresentadas.
| As propostas de bandeira nacional apresentadas em 1910. |
Em 1911, o novo estandarte nacional recebe aprovação constitucional: vermelho, para lembrar a conquista, a vitória e o sangue; verde, cor da esperança, simbolizando a importante mudança então vivida no país; a esfera armilar, apanágio dos Descobrimentos; as cinco quinas, homenageando os defensores da independência portuguesa durante a História; os sete castelos, representativos da fundação da nação portuguesa.
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| O projeto adotado. A atual bandeira nacional. |
Além da bandeira, o governo republicano adotou também uma nova moeda, o escudo, e um novo hino – A Portuguesa, a marcha composta em 1890 em resposta ao Ultimato Inglês.
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| Moeda de 1 escudo (1916) |
Para saber mais:
http://www.ensina.rtp.pt/artigo/d-manuel-ii-1889-1932/
http://www.ensina.rtp.pt/artigo/5-de-outubro-1910/
http://www.centenariorepublica.pt/
Fonte: Ruben Castro e Ricardo Ferrand, Grandes datas de Portugal (1096-2007), Texto Editores, Lisboa, 2011.
Fonte: Ruben Castro e Ricardo Ferrand, Grandes datas de Portugal (1096-2007), Texto Editores, Lisboa, 2011.
sábado, 30 de abril de 2016
À porta da História - RTP
«A série documental que aqui apresentamos traz para o domínio do grande público 13 portugueses que se destacaram no seu tempo e, através das suas ações e/ou da sua obra, conquistaram um lugar na galeria de notáveis. Acima de tudo, são personalidades com percursos inesperados e cheios de curiosidade que nos vão entusiasmar. Personalidades que, por vários acasos do destino, foram deslizando para uma zona obscura do mediatismo histórico. Foram notáveis. Fizeram obra. Muitos deixaram seguidores e influenciaram as gerações seguintes. Mas são, hoje, pouco recordados nas efemérides, nas comemorações, nos manuais escolares, nas páginas de jornais - enfim, na nossa agenda mediática coletiva.»
CLIQUE nos episódios!
1896-1958
jogador, treinador e jornalista desportivo
co-fundador do jornal ABola
«Cidadão do mundo, defensor da liberdade até às últimas consequências, sai do campo de concentração para o campo de futebol. Alentejano, antifascista, funcionário dos CTT, jornalista, jogador, treinador e selecionador nacional, Cândido Fernando Plácido de Oliveira torna-se um espião valioso para os Aliados durante a 2ª Guerra Mundial. Toda a sua vida é uma corrida contra o tempo, mas com que vida é que entra na História?!...»
1894-1981
cantora lírica
autora do muito popular manual de cozinha portuguesa, O livro de Pantagruel
«Numa época em que as mulheres estavam destinadas a serem apenas donas de casa, esta mulher nascida em Moçambique, empreendedora e irreverente, estuda música, viaja pela Europa, lança uma linha de cosméticos e muda para sempre os hábitos culinários dos portugueses. Esta é a história de Bertha Rosa-Limpo, cantora lírica e senhora da alta sociedade lisboeta que não sabia estrelar um ovo quando se casou e que criou o "O Livro de Pantagruel", o manual de cozinha mais popular do séc. XX português.»
1992-1978
economista e professor universitário
estudioso da presença judaica em Portugal
«Economista, intelectual, apaixonado pela História, Moses Bensabat Amzalak, nascido em Lisboa em 1892, tem o grande sonho de trazer mais indústria e saber a um país essencialmente agrícola e cinzento.»
1891-1946
guitarrista e compositor de fado
«O fado é a sua vida e a guitarra a sua voz. Armandinho deixa para a História uma técnica e músicas que continuam a influenciar as novas gerações de guitarristas de fado.»
1884-1960
medico, político, escritor e historiador
«A sua vida é um combate pela liberdade. Da greve académica em 1907, até aos bancos da Assembleia Nacional, este intelectual beirão, amante da terra portuguesa, mas forçado ao exílio, está sempre pronto a largar os livros para lutar contra as ditaduras. Enquanto esse dia não chega, Jaime Zuzarte Cortesão, nascido em 1884, em Ançã, Cantanhede, assina discursos exaltados, poemas heroicos e faz aquilo que mais gosta. Escreve a História que se lê como o prazer de um romance.»
1878-1911
médica e feminista
primeira mulher a votar em Portugal
«Médica-cirurgiã, ativista e sufragista, dividiu as mulheres e uniu os homens. Carolina Beatriz Ângelo, natural da Guarda, foi a 1ª mulher a operar no Hospital de S. José. Derrubou preconceitos. Ganhou e perdeu batalhas. Onde muitos ergueram muros, ela abriu portas, escolhendo sempre o caminho mais difícil: o de não desistir. Foi a primeira mulher a votar em Portugal. Em Maio de 1911 entra numa sala cheia de homens e arriscando a sua reputação...fica na História!»
1868-1933
padre, cientista e inventor
precursor do aproveitamento da energia solar
«Visionário e inventor é padre, cientista e um enigma. Toda a sua vida é uma busca pelo saber. Interessa-se por religião, medicina, engenharia, economia, ecologia e educação. Para este padre nascido em Cendufe, em 1868, a ciência é um instrumento para o bem comum. Incompreendido pelos seus contemporâneos, Manoel António Gomes mais conhecido como Padre Himalaia vive muito à frente do seu tempo. Mas a História dar-lhe-á razão.»
1862-1931
revolucionário republicano
pioneiro do cinema, realizando o primeiro filme em Portugal
«Comerciante de sementes, com gosto pelas flores, captou com a sua máquina fotográfica e o seu imenso talento os últimos dias da monarquia. Apaixonado por tudo o que fazia, Aurélio Paz dos Reis, nascido no Porto, fotógrafo e pioneiro do cinema em Portugal, viveu para provar que uma imagem vale mais que mil palavras. Um dia, saiu à rua imortalizando um acontecimento trivial num dos marcos da História do país.»
1854-1929
escritor e militar
orientalista
«Segue os passos de Camões, Fernão Mendes Pinto e Camilo Pessanha. Parte para as terras do sol nascente. Vive em Macau. Visita a China e apaixona-se pelo Japão. Como não consegue levar Portugal para o Oriente tem a obsessão de trazer o Oriente para Portugal. A história de Venceslau José de Sousa Morais, nascido em 1857, em Lisboa, é um convite à viagem, à descoberta e ao exótico, tudo para que a nossa vida seja um livro de aventuras e não um conto de banalidades.»
1850-1898
oficial da Marinha portuguesa
explorador do continente africano
«Transforma um desafio numa paixão. A grandiosidade da paisagem africana, a surpresa da descoberta de novas terras, animais e costumes são o seu dia-a-dia em viagens solitárias e incertas. Numa época em que Portugal precisa de heróis para defender os seus territórios em África, o jovem explorador não hesita e parte para o desconhecido. Roberto Ivens, nascido em 1850 em Ponta Delgada, Açores, conhecido pelos companheiros de infância pela alcunha de Roberto do Diabo, suporta o cansaço, a fome, a sede, as febres e o desespero e caminha milhares de quilómetros para entrar na História.»
1843-1897
médico e professor universitário
benfeitor público
«A Medicina é a sua vida e a sua religião. Nasce no povo e chega a médico da família real, mas não esquece as suas origens. Vai aos bairros pobres de Lisboa tratar e dar auxílio. Percorre o país e a Europa em busca de conhecimento. Afasta charlatães e curandeiros. Não acredita em mezinhas e rezas. José Thomaz de Sousa Martins, nascido em 1893 em Alhandra, cria uma legião de admiradores em vida que o idolatra na morte. Nasce para ser médico fica para a História como santo.»
1872-1956
aristocrata, escultora
fundadora das Cozinhas Económicas
«Aristocrata numa sociedade burguesa, artista no meio de homens, lutadora entre operários miseráveis. Na arte procura o ideal de beleza, na rua enfrenta a realidade da pobreza. Vive em palácios, trabalha em cozinhas. Sonhadora de impossíveis, Dª Maria Luísa de Sousa Holstein Beck, 3ª Duquesa de Palmela, deixa para a História uma obra social tão duradoura como as suas esculturas.»
1828-1912
poeta, ensaísta
gastrónomo
«Nascido em Bilbau, filho de pai português e mãe espanhola, poeta, monárquico, memorialista, burocrata, gastrónomo e amante de caça percorre os ambientes boémios de Lisboa, nos finais do séc. XIX, em busca de glória. Raimundo António de Bulhão Pato ficará para a História não pela sua veia poética mas pelo nome do petisco que nunca cozinhou mas ao qual deram o seu nome.»
segunda-feira, 25 de abril de 2016
Abril na imprensa...
Hoje, talvez assim fosse pelos jornais deste mundo...
República, PORTUGAL
The Guardian, GRÃ-BRETANHA
Aftonbladet, SUÉCIA
El País, ESPANHA
Le Monde, FRANÇA
La Repubblica, ITÁLIA
The New York Times, ESTADOS UNIDOS
Novaya Gazeta, RÚSSIA
Süddeutsche Zeitung, ALEMANHA
Politiken, DINAMARCA
De Volkskrant, PAÍSES BAIXOS
Aftenposten, NORUEGA
Asahi Shinbun, JAPÃO
conceção: Miguel Guerra
terça-feira, 1 de março de 2016
Universidade de Coimbra - 726 anos
Mais uma vela para a velhinha Universidade de Coimbra, uma das mais ilustres e antigas da Europa. O diploma régio de D. Dinis, Scientiae thesaurus mirabilis, funda, no dia 1 de Março de 1290, a primeira universidade portuguesa. É desde 2013 património mundial da UNESCO.
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| Selo da Universidade de Coimbra - Insignia Universitatis Conimbrigensis |
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| Selo da universidade em calçada portuguesa junto à Porta Férrea, entrada de honra da instituição. |
quinta-feira, 14 de janeiro de 2016
Escravos e escravatura em Portugal
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| Punição de um escravo (gravura de Jean-Baptiste Debret, in Voyage pittoresque et historique au Brésil, 1834-39) |
História a História: "Escravos e escravatura em Portugal"
(ou em vimeo.com/145862037)
PERGUNTAS:
1. Indica a data e o local da primeira partilha de escravos em Portugal.
2. Quais eram as três praças de mercado usadas, em Lisboa, para o comércio de escravos.
3. Que grupos populacionais estavam proibidos de possuir escravos em Portugal? Porquê?
4. Qual é a percentagem de escravos apontada pelos historiadores em Lisboa, no século XVI.
5. Qual é a origem da rua do Poço dos Negros?
6. O que é uma carta de alforria?
7. O que significa a alforria testamentária?
8. Quem, no século XVI, ordenou a conversão dos escravos ao Cristianismo?
9. Quem é o autor das primeiras leis abolicionistas, em Portugal? Em que século?
10. Refere a data da abolição total da escravatura em Portugal. E no Brasil?
terça-feira, 1 de dezembro de 2015
Efemérides da História Lusófona: #5 A Restauração da Independência (01 de dezembro de 1640)
– Após 60 anos, Portugal expulsa os Espanhóis –
Os primeiros anos de governo de Filipe I foram, em geral, bem aceites pelos Portugueses, apesar do desejo de Portugal ter um rei português não ter desaparecido. Porém, Espanha era um país rico e poderoso; Filipe I cumpriu as promessas que fizera em Tomar e Portugal parecia estar a recuperar dos problemas provocados pelo mau governo de D. Sebastião.
Esta situação começou a mudar quando Filipe II (III de Espanha) subiu ao trono. Espanha enfrentava problemas económicos sérios: a quantidade de prata que chegava da América estava a diminuir e eram necessários cada vez mais impostos para suportar as despesas do império ultramarino. Os impostos aumentaram bastante em Espanha e em Portugal. Além disso, Filipe II nomeou, para o Conselho de Portugal, minitros espanhóis, quebrando a promessa que Filipe I fizera em Tomar. A situação piorou ainda mais no reinado de Filipe III (IV de Espanha). Os impostos continuaram a aumentar, os ataques dos Ingleses, Franceses e Holandeses (inimigos de Espanha) fizeram perder muitos territórios do império português e muitos portugueses foram obrigados a juntar-se aos exércitos espanhóis nas suas guerras na Europa. Em 1637, surgiram revoltas em Évora e no Algarve contra o governo espanhol. Em 1640, uma conspiração de alguns membros da nobreza conseguiu finalmente o apoio de D. João, duque de Bragança, neto de D. Catarina.
Os conspiradores, com a promessa de ajuda de França, e num momento em que Espanha tinha de resolver revoltas internas, decidiram colocar o seu plano em prática. No dia 1 de dezembro, foram ao palácio real de Lisboa e prenderam a duquesa de Mântua, prima do rei, que governava Portugal como vice-rainha, assim como foi morto o seu secretário de Estado, Miguel de Vasconcelos (reza a história que, depois de morto, o corpo terá sido defenestrado de uma das janelas do palácio real). O duque de Bragança foi então aclamado rei nas ruas de Lisboa, com o título de D. João IV. Portugal recuperara a independência.
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A proclamação de D. João IV, por Columbano Bordalo Pinheiro
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– D. João IV –
D. João IV nasceu em Vila Viçosa, em 1604, filho de D. Teodósio, duque de Bragança. Era neto de D. Catarina, uma das pretendentes ao trono depois da morte do cardeal-rei D. Henrique. Duque de Bragança e descendente de D. Manuel I, D. João era o nobre mais poderoso de Portugal. Desde muito cedo, tentaram aproximá-lo de Espanha, para que não fosse “tentado” a reclamar o direito ao trono português. Casou com uma dama de uma das mais importantes famílias espanholas, D. Luísa de Gusmão. Em 1639, foi nomeado governador militar de Portugal, sendo responsável por recrutar os soldados portugueses que se deviam juntar ao exército espanhol, o que podia torná-lo muito impopular junto da população portuguesa.
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| Estátua equestre de D. João IV, frente ao palácio ducal de Vila Viçosa |
D. João, porém, soube manter uma certa neutralidade e, quando começou a conspiração que pretendia derrubar o governo espanhol, foi convidado para ser o seu líder. D. João, apesar de algumas dúvidas, acabou por aceitar. Quando a conspiração saiu vitoriosa, foi aclamado rei em Lisboa, a 15 de dezembro de 1640. Com ele iniciou-se a quarta Dinastia de Portugal: a de Bragança.
Mas a luta pela independência não terminou ali. A guerra com Espanha durou 28 anos e foi preciso um esforço militar e financeiro muito grande para ganhá-la. Este esforço impediu que Portugal conseguisse defender muitos do seus territórios ultramarinos, perdendo-os para os Holandeses e os Franceses. Recuperada a independência, havia, porém, ainda muito para fazer. D. João IV morreu em 1656. Sucedeu-lhe o filho, D. Afonso VI.
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| Bandeira de D. João IV |
– A mentira –
Lamego, cidade da Beira Alta, ficou ligada à restauração da independência por algo que nunca existiu. Para justificar o direito de D. João IV a reclamar o trono, de modo a não parecer um usurpador, apresentaram-se as atas de uma reunião de Cortes que teria acontecido em Lamego, em 1143 (no tempo de D. Afonso Henriques). Estas atas (que não passavam de uma falsificação feita por volta de 1632) diziam que as mulheres não podiam nem herdar a Coroa nem transmitir direitos sucessórios a ela, a menos que tivessem casado com nobres portugueses. Isto queria dizer que Filipe II não podia ter sido escolhido rei. D. João IV limitar-se, por isso, a restaurar a linha legítima de sucessão ao trono – daí o nome de Restauração.
– A hora do chá –
Para conseguir que a restauração da sua independência fosse reconhecida pelos outros países europeus, Portugal fez muitos esforços diplomáticos. Um deles levou ao casamento de D. Catarina, filha de D. João IV, com o rei de Inglaterra, Carlos II. Uma das coisas que D. Catarina levou para Inglaterra foi o hábito de beber chá, que viria a tornar-se uma espécie de “bebida nacional” inglesa...
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| D. Catarina de Bragança, rainha de Inglaterra, por Peter Lely, 1663-1165 |
Fonte: Ruben Castro e Ricardo Ferrand, Grandes datas de Portugal (1096-2007), Texto Editores, Lisboa, 2011.
quarta-feira, 11 de novembro de 2015
Efemérides da História Lusófona: #3 A independência de Angola (11 de novembro de 1975)
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| Brasão da Província Ultramarina de Angola |
É António Agostinho Neto, médico, escritor e líder do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), quem proclama solenemente a independência do país.
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| Agostinho Neto: «o MPLA proclama solenemente perante a África e o Mundo, a independência de Angola», 11/11/1975 Discurso de proclamação da independência |
ADEUS À HORA DA LARGADA (1951) António Agostinho Neto
Minha mãe(todas as mãe negras
cujos filhos partiram)
tu me ensinaste a esperar
como esperaste nas horas difíceis
Mas a vida
matou em mim essa mística esperança
Eu já não espero
sou aquele por quem se espera
Sou eu minha Mãe
a esperança somos nós
os teus filhos
partidos para uma fé que alimenta a vida
Hoje
somos as crianças nuas das sanzalas do mato
os garotos sem escola a jogar a bola de trapos
nos areias ao meio-dia
somos nós mesmos
os contratados a queimar vidas nos cafezais
os homens negros ignorantes
que devem respeitar o homem branco
e temer o rico
somos os teus filhos
dos bairros de pretos
além aonde não chega a luz elétrica
os homens bêbedos a cair
abandonados ao ritmo dum batuque de morte
teus filhos
com fome
com sede
com vergonha de te chamarmos Mãe
com medo de atravessar as ruas
com medo dos homens Bandeira de Angola
nós mesmos
Amanhã
entoaremos hinos à liberdade
quando comemorarmos
a data da abolição desta escravatura
Nós vamos em busca de luz
os teus filhos Mãe
(todas as mães negras
cujos filhos partiram)
Vão em busca de vida.
CONSCIENCIALIZAÇÃO (1951) António Agostinho Neto
Medo no ar!Em cada esquina
sentinelas vigilantes incendeiam olhares
em cada casa
se substituem apressadamente os fechos velhos
das portas
e em cada consciência
fervilha o temor de se ouvir a si mesma
A História está a ser contada
de novo
Medo no ar!
Acontece que eu
homem humilde
ainda mais humilde na pele negra
me regresso Àfrica
para mim
com os olhos secos.
PRELÚDIO (1951) ALDA LARA
(para a Lydia – minha velha ama negra)
Pela estrada desce a noite
Mãe-Negra, desce com ela...
Nem buganvílias vermelhas,
nem vestidinhos de folhos,
nem brincadeiras de guisos,
nas suas mãos apertadas.
Só duas lágrimas grossas,
em duas faces cansadas.
Mãe-Negra tem voz de vento,
voz de silêncio batendo
nas folhas do cajueiro...
Tem voz de noite, descendo,
de mansinho, pela estrada...
Que é feito desses meninos
que gostava de embalar?...
Que é feito desses meninos
que ela ajudou a criar?...
Quem ouve agora as histórias
que costumava contar?...
Mãe-Negra não sabe nada...
Mas ai de quem sabe tudo,
como eu sei tudo
Mãe-Negra!...
Os teus meninos cresceram,
e esqueceram as histórias
que costumavas contar...
Muitos partiram p'ra longe,
quem sabe se hão-de voltar!...
Só tu ficaste esperando,
mãos cruzadas no regaço,
bem quieta bem calada.
É a tua a voz deste vento,
desta saudade descendo,
de mansinho pela estrada…
O RITMO DO TANTÃ (1970) António Jacinto
O ritmo do tantã não o tenho no sanguenem na pele
nem na pele
tenho o ritmo do tantã no coração
no coração
no coração
o ritmo do tantã não tenho no sangue
nem na pele
nem na pele
tenho o ritmo do tantã sobretudo
mais do que pensa
mais do que pensa
Penso África, sinto África, digo África
Odeio em África
Amo em África
Estou em África
Eu também sou África
tenho o ritmo do tantã sobretudo
no que pensa
no que pensa
penso África, sinto África, digo África
E emudeço
dentro de ti, para ti África
dentro de ti, para ti África
África
África
África.
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Efemérides da História Lusófona: #2 O fim da "Grande Guerra" (11 de novembro de 1918)
Em 1910, quando a República foi implantada em Portugal, os conflitos entre as maiores potências europeias tinham-se agravado. A Inglaterra, a França e a Alemanha disputavam territórios em África e, na Europa, a Alemanha tentava tornar-se a potência dominante. Destes conflitos surgiram dois blocos de potências adversárias – de um lado, a Inglaterra, a França e o Império Russo: a Tríplice-Entente; do outro, o Império Alemão, o Império Austro-Húngaro e o Reino de Itália: a Tríplice-Aliança.
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| A Tríplice-Aliança, Le Petit Journal, 25/10/1896 |
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| Alegoria da Tríplice-Entente (cartaz russo de 1914) |
Em 1914, o assassínio do arquiduque Francisco Fernando, herdeiro do trono austro-húngaro, fez desencadear uma guerra entre estes dois blocos – seria a Primeira Guerra Mundial. No início, Portugal, aliado da Inglaterra, permaneceu fora do conflito, embora tivesse de defender as suas colónias em África de ataques dos alemães. O governo do novo Partido Democrático (oriundo da cisão do Partido Republicano Português) acreditava que a Triplíce-Entente sairia vencedora. Defendia, por isso, a entrada de Portugal na guerra de modo a garantir, no final do conflito, a posse das suas colónias. Porém, muitos dos oficiais das forças armadas portuguesas não concordavam por acharem que as tropas portuguesas não estavam preparadas para um conflito deste tipo. Em 1916, contudo, os Aliados pediram a Portugal que apreendesse os navios alemães ancorados em portos portugueses. Portugal concordou e a Alemanha declarou-lhe guerra. Foi então decidido criar um corpo militar, em 1916, para ser enviado para a linha da frente de combate, em França – o Corpo Expedicionário Português (CEP).
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| Partida do CEP para França. Cais de Santa Apolónia em Lisboa, janeiro de 1917. |
Houve, no entanto, muitas dificuldades na formação deste corpo, em homens e em material. Apesar de ter recebido formação militar no tempo recorde de nove meses (o chamado “Milagre de Tancos”, a base militar onde decorreu a formação) e de ter armas fornecidas por Inglaterra, o CEP chegou a França mal preparado, com oficiais pouco motivados e até descontentes com a participação portuguesa nesta guerra. As dificuldades aumentaram já na frente de combate, em França, no início de 1917: o inverno rigoroso, as rações inglesas de que os soldados portuguesas não gostavam e, principalmente, a falta de tropas que rendessem os soldados na linha da frente. Estes problemas contribuíram para que, no dia 9 de abril de 1918, as tropas portuguesas sofressem uma pesada derrota na Batalha de La Lys. A participação de Portugal na Primeira Guerra Mundial, bem como a derrota nesta batalha, contribuíram para agravar a situação delicada do país.
No dia 11 de novembro de 1918, a Alemanha oficializa a sua rendição com a assinatura do Armistício, em Compiègne (Oise).
– La Lys –
A Batalha de La Lys teve lugar nas planícies junto ao rio Lys, na região fronteiriça entre a França e a Bélgica (Flandres). Esta região foi uma das principais áreas de combate durante toda a Primeira Guerra Mundial. Os exércitos inimigos (impérios alemão e austro-húngaro de um lado e os Aliados – França, Inglaterra e Bélgica – do outro) estavam dispostos ao longo de linhas fortificadas por trincheiras com vários quilómetros de extensão.
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| O Corpo Expedicionário Português nas trincheiras de La Lys. |
Na região do Lys havia duas linhas de trincheiras que se estendiam por mais de 55 km: a segunda linha ficava a 200-300 metros da primeira. Uma terceira linha, na retaguarda, já sem trincheiras, ficava entre 500 a 1000 metros da segunda. O CEP defendia uma parte destas linhas fortificadas. A ofensiva alemã aconteceu no dia em que as tropas portuguesas iriam ser rendidas na linha da frente. Comandadas pelo general Gomes da Costa, estavam cansadas, mal equipadas e desmotivadas. Apesar disso, resistiram mais de 24 horas, sofrendo pesadas baixas (mais de 7000 homens, entre mortos, feridos e prisioneiros), mas contribuíram com a sua resistência para que o ataque alemão não tivesse resultados piores para os Aliados.
– A participação brasileira –
A 4 de agosto de 1914, a República Brasileira declara a sua neutralidade no conflito querendo, assim, garantir a continuidade do comércio das suas mercadorias, principalmente o café. Alastrando-se a vários continentes, a guerra põe em causa a sustentabilidade da economia brasileira que se concentrava maioritariamente na exportação da produção cafeeira. Não sendo um bem de primeira necessidade, o seu comércio diminuiu fortemente. A Inglaterra chega mesmo a proibir a sua importação, em 1917, a fim de libertar espaço no porão dos navios para mercadorias mais essenciais. Contudo, o estado de neutralidade iria alterar-se a partir de 1917. O patrulhamento cerrado dos litorais atlânticos por parte da frota submarina alemã leva a frequentes torpedeamentos de navios mercantes e paquetes. Ficou célebre o caso do paquete britânico Lusitânia, afundado por submarinos da marinha alemã, em 1915. Da mesma forma serão destruídas várias embarcações brasileiras.
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| O presidente da República do Brasil, Venceslau Brás, declara guerra à Alemanha e aos seus aliados. |
A 5 de abril de 1917, o navio mercante brasileiro Paraná é torpedeado junto à costa normanda e, na sequência, o Brasil quebra as suas relações diplomáticas com o Império Alemão. Seguem-se novos afundamentos: a 20 de maio de 1917, o navio Tijuca (o que leva o governo brasileiro a confiscar dezenas de embarcações alemãs ancoradas em portos brasileiros, como indemnização); a 27 de julho, é a vez do navio a vapor Lapa; a 23 de outubro, o cargueiro Macau, junto à costa espanhola, e que leva ao aprisionamento do comandante do navio. Na sequência, e face à intensa pressão popular que se fazia sentir no Brasil há já vários meses, o presidente da República, Venceslau Brás, declara guerra à Alemanha e aos seus aliados no dia 26 de outubro de 1917. Ainda a 4 de novembro, são torpedeados os navios Guaíba e Acari. São abertos os portos brasileiros às forças navais aliadas, assim como incumbe à marinha brasileira o patrulhamento do Atlântico Sul. Várias forças brasileiras integram as áreas de confronto na frente ocidental: a Força Aérea brasileira junta-se à Royal Air Force britânica, a Marinha atua, em auxílio dos ingleses, nas imediações do Estreito de Gibraltar; uma missão médica é enviada para França para auxiliar o corpo médico aliado; um contingente de oficiais serve junto do Exército francês.
Nas conferências de paz que assinalam o fim da guerra, em Paris e em Versalhes, a representação brasileira garante reparações de guerra, em particular no que se refere aos navios afundados e às mercadorias destruídas.
Nas conferências de paz que assinalam o fim da guerra, em Paris e em Versalhes, a representação brasileira garante reparações de guerra, em particular no que se refere aos navios afundados e às mercadorias destruídas.
– Sidónio Pais –
Nasceu em 1872, em Caminha. Seguiu a carreira militar, mas viria a tornar-se também professor de Cálculo diferencial na Universidade de Coimbra. Defensor das ideias republicanas desde os tempos de estudante, fez parte de dois governos republicanos após a implantação da República. Em 1912 assumiu o cargo de ministro de Portugal na Alemanha, onde ficou até 1916 (ano em que a Alemanha declarou guerra a Portugal). Foi depois de regressar a Portugal que Sidónio Pais começou a ganhar maior destaque na vida política portuguesa. Tornou-se um dos principais líderes da contestação aos governos republicanos, à sua incapacidade para resolver os problemas dos Portugueses e à constante agitação política.
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| Sidónio Pais à entrada da Sé de Lisboa por altura do ofício religioso em memória dos soldados portugueses mortos em França. |
No dia 5 de dezembro de 1917, Sidónio Pais liderou um golpe de Estado que derrubou o governo republicano. Instaurou uma ditadura militar e assumiu o cargo de presidente da República. Tornou o regime mais presidencialista e apareceu como o homem forte que iria pôr ordem no país – era a “República Nova”. Inicialmente, teve grande apoio popular, com enormes multidões a recebê-lo onde quer que fosse. Porém, a continuação da participação de Portugal na guerra, as perseguições a opositores do regime e as dificuldades económicas rapidamente acabaram com este “estado de graça”. Voltaram as greves, os protestos e a agitação constante. A 5 de dezembro, um ano depois do golpe, Sidónio Pais escapou a um atentado. Contudo, pouca mais de uma semana depois, ao chegar à Estação do Rossio para embarcar com destino ao Porto, já não conseguiu escapar. As balas disparadas por José Júlio Costa no dia 14 de dezembro de 1918 acertaram no alvo e os tiros foram mortais.
Fontes:
Rúben Castro e Ricardo Ferrand, Grandes datas de Portugal (1096-2007), Texto Editores, Lisboa, 2011.
http://www.grandesguerras.com.br/artigos/text01.php?art_id=68
Rúben Castro e Ricardo Ferrand, Grandes datas de Portugal (1096-2007), Texto Editores, Lisboa, 2011.
http://www.grandesguerras.com.br/artigos/text01.php?art_id=68
http://pt.wikipedia.org/wiki/Brasil_na_Primeira_Guerra_Mundial
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domingo, 1 de novembro de 2015
Efemérides da História Lusófona: #1 O Grande Terramoto (01 de novembro de 1755)
– Lisboa devastada no Dia de Todos os Santos –
D. José I sobe ao trono em 1750, procurando seguir as políticas do pai, D. João V, continuando a fortalecer o poder real. Esta política, porém, tinha de enfrentar as dificuldades económicas que estavam a surgir, a começar pela diminuição das remessas de ouro que chegavam do Brasil. Esta situação piorou no dia 1 de novembro de 1755. Nesse dia, pelas 09h30 da manhã, o sul de Portugal foi atingido por um violento terramoto. Em Lisboa, as igrejas estavam cheias, pois era Dia de Todos os Santos. Quando o terramoto se fez sentir, milhares de edifícios, entre eles muitas dessas igrejas, ruíram, matando muitos dos que estavam no seu interior [Os geólogos modernos presumem que possa ter atingido uma magnitude de 9 na escala de Richter (1-10)]. As águas do Tejo, recuando por ação do terramoto, abateram-se depois sobre a cidade numa onda gigante, que se pensa ter atingido mais de 20 metros de altura, um maremoto. Logo em seguida deflagrou um enorme incêndio que alastrou pelo centro da cidade e durou seis dias. Esta destruição provocou mais de dez mil mortos e deixou mais de meia cidade completamente destruída. Entre os edifícios que ruíram estava o Paço da Ribeira (o palácio onde residia o rei) e a Casa da Índia, onde funcionava a alfândega. Noutros pontos do país a destruição foi também muito violenta, em especial no Algarve.
O Terreiro do Paço em 1650, por Dirk Stoop, 1650
Do governo de D. José I fazia parte Sebastião José de Carvalho e Melo. Este tomou o comando das operações no seguimento da destruição provocada pelo terramoto, respondendo rápida e decididamente a esta calamidade. Ficou célebre a resposta que terá dado quando lhe perguntaram o que se devia fazer: «Enterrar os mortos e cuidar dos vivos.» Este governante ficou mais tarde conhecido como Marquês de Pombal. O terramoto, além custar muitas vidas, causou muitos danos e destruição em edifícios, tesouros artísticos, bibliotecas e arquivos que se perderam. Além disso, iria exigir muito dinheiro para a reconstrução, em especial de Lisboa. A notícia do terramoto espalhou-se depressa pela Europa, onde provocou grande espanto e emoção.
O terramoto de Lisboa (gravura do século XIX)
– O Marquês de Pombal –
Sebastião José de Carvalho e Melo nasceu em 1699, filho de uma família nobre, mas de poucas posses. Terá estudado na Universidade de Coimbra e casou com uma viúva da alta nobreza, bastante mais velha e rica. Em 1739, foi nomeado embaixador em Londres e, em 1745, em Viena. De volta a Portugal, em 1750, foi nomeado para o governo de D. José I como secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Guerra. A sua ação enérgica na resposta ao terramoto levou o rei a nomeá-lo primeiro-ministro. A partir daí, Carvalho e Melo seguiu uma política de afirmação do poder real, que se chamou “despotismo esclarecido”. Atacou o poder da nobreza, mandando executar muitos membros da família dos Távora e outros nobres, acusados de quererem atentar à vida do rei. Expulsou os jesuítas de Portugal e dos territórios ultramarinos. Processa uma profunda reforma do ensino em Portugal, em particular com os novos Estatutos da Universidade de Coimbra, em 1772.
O Marquês de Pombal iluminando e reconstruíndo Lisboa, por Louis-Michel van Loo e Claude J. Vernet, 1766
Para tentar resolver a crise económica, fundou companhias comerciais, criou e reorganizou muitas manufaturas e criou a Companhia Geral das Vinhas do Alto Douro, que controlava a produção e comercialização do vinho do Porto. Muitas destas decisões ajudaram a fortalecer a posição da burguesia na sociedade portuguesa. Em 1769 recebeu o título de Marquês de Pombal. Com a morte de D. José I, foi afastado do poder e obrigado a ficar, desterrado, em Pombal. Morreu em 1782. Ainda hoje a sua ação é elogiada por uns e criticada por outros.
– A Baixa Pombalina –
Lisboa foi um dos locais mais afetados pelo terramoto. Grande parte da cidade ficou destruída. Na reconstrução seguiram-se ideias modernas de urbanismo: ruas largas, compridas e a direito, passeios para peões, edifícios com altura (4 ou 5 pisos) e fachadas semelhantes, com lojas nos pisos inferiores e residências nos superiores. Criou-se também uma rede de esgotos, para melhorar a higiene na cidade. O Terreiro do Paço foi rebatizado Praça do Comércio em homenagem aos comerciantes que contribuíram para a reconstrução da cidade, mas no centro da praça foi colocada uma estátua do rei D. José I, para afirmar a autoridade real.
A ação do Marquês de Pombal na reconstrução de Lisboa foi tão importante que a zona da Baixa ainda hoje lembra o seu nome: a Baixa Pombalina.
Planta para a reconstrução da Baixa de Lisboa
Fontes:Rúben Castro e Ricardo Ferrand, Grandes datas de Portugal (1096-2007), Texto Editores, Lisboa, 2011.
http://pt.wikipedia.org/wiki/Sismo_de_Lisboa_de_1755
http://www.museudacidade.pt/Esposicoes/Permanente/Paginas/Terramoto-de-1755-Reconstrucao-sec-XVIII%E2%80%93XIX.aspx
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