Mostrar mensagens com a etiqueta Efemérides da História Lusófona. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Efemérides da História Lusófona. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Efemérides da História Lusófona: #8 A proclamação da República (5 de outubro de 1910)

– Viva a República! A Monarquia chega ao fim –
     O assassínio do rei D. Carlos e do príncipe herdeiro D. Luís Filipe, em 1908, marcou o princípio do fim da Monarquia em Portugal. O novo rei, D. Manuel II, teve de assumir o trono com apenas 18 anos, não estando preparado para as funções de monarca. D. Manuel tentou acalmar o ambiente tenso e agitado que se vivia. Demitiu João Franco, até então chefe do governo, considerado responsável pela insatisfação que levara ao regicídio e nomeou um governo constituído pelos vários partidos apoiantes da Monarquia. Mas o ambiente político estava cada vez mais instável e os partidos monárquicos envolviam-se em lutas que pareciam não ter fim. Entretanto, o Partido Republicano ganhava apoio e venceu mesmo as eleições para o Município de Lisboa, em novembro de 1908. Os escândalos sobre a atividade dos governos sucediam-se, muitas vezes exagerados pela imprensa simpatizante dos republicanos. Em 1909, o rei procurou obter apoios para o regime monárquico, em especial junto do rei de Inglaterra, Eduardo VII, mas sem sucesso.


D. Manuel II, ultimo rei de Portugal

     Por fim, o inevitável aconteceu. No dia 4 de outubro de 1910, às primeiras horas da manhã, começou a revolução. Tropas republicanas ocuparam a Rotunda, em Lisboa, e uma posição próxima do Palácio das Necessidades, no bairro de Alcântara, residência do rei D. Manuel II. Os revoltosos conseguiram também que três navios de guerra ancorados no Tejo aderissem à causa republicana, chegando mesmo a bombardear o palácio real. Depois de um dia de muita ansiedade, no dia 5 os republicanos conseguiram triunfar. A República foi proclamada por José Relvas, um dos principais líderes republicanos, na varando do edifício da Câmara de Lisboa.
A proclamação da República da varanda da Câmara Municipal de Lisboa, a 5 de outubro de 1910


A primeira página do jornal O Século, de 6 de outubro de 1910

    D. Manuel II tinha partido para Mafra para libertar a sua guarda pessoal para o combate aos revoltosos. Após saber do triunfo da revolução, dirigiu-se à Ericeira, onde embarcou no iate real Amélia. Acompanhando da mãe e da avó, partiu para o exílio para Inglaterra. Tinha acabado a Monarquia em Portugal.
Alegoria da proclamação da República Portuguesa.
Litografia de Cândido da Silva.

– Machado Santos –
     António Maria de Azevedo Machado Santos nasceu em Lisboa, em 1875, filho de um pequeno comerciante. Em 1891 (o ano da revolta republicana no Porto), alistou-se na Marinha, seguindo a carreira na Administração Naval, chegando a segundo tenente. Politicamente, foi militante de movimentos de esquerda monárquica, aproximando-se depois dos republicanos. Opôs-se ao governo ditatorial de João Franco e tornou-se membro da Carbonária, uma organização secreta que pretendia derrubar o regime monárquico, se necessário pela força das armas. Machado Santos foi um conspirador eficiente que conseguiu mobilizar para a causa republicana vários jovens recrutas. Quando se preparou a revolta de outubro de 1910, era uma das figuras principais. Na madrugada de 4 de outubro, apesar de alguma descoordenação entre os dirigentes republicanos, Machado Santos, após tomar os quartéis de Infantaria 16 e Artilharia 1, dirigiu-se para a Rotundo, no topo da avenida da Liberdade. Durante todo o dia resistiu aos ataques das tropas leais à Monarquia, sendo um dos poucos líderes revoltosos que não abandonou a sua posição. A sua determinação foi fundamental para o triunfo dos republicanos. Na manhã do dia 5 de outubro, foi proclamada a República Portuguesa. Apesar de ser um dos principais responsáveis pelo triunfo republicano, Machado Santos opôs-se depois à maioria dos governos republicanos por não concordar com muitos dos políticos que os integravam. Foi assassinado por rebeldes monárquicos em outubro de 1921.
António Machado Santos, herói da revolução de 5 de outubro.

– A Rotunda –
     Este local estratégico na cidade de Lisboa foi da maior importância para o triunfo da revolução republicana. Situada no topo da avenida da Liberdade, a Rotunda controlava o acesso à parte alta da cidade. O plano republicano era reunir às tropas que tomaram a Rotunda os marinheiros dos navios de guerra que aderiram à revolta. O objetivo era isolar as tropas monárquicas do Quartel do Carmo.
Membros da Carbonária nas barricadas da Rotunda.

     As primeiras horas da revolta trouxeram notícias pouco animadoras e muitos oficiais republicanos, receando que a operação falhasse, decidiram abandonar a Rotunda. Mas as tropas lideradas por Machado Santos e auxiliadas por muitos civis membros da Carbonária mantiveram-se no local. A resistência a posição da Rotunda foi assim essencial para o triunfo da revolução.

– Os Novos símbolos –
     O novo regime republicano escolheu novos símbolos nacionais para marcar a diferença em relação à monarquia. A bandeira azul e branca foi substituída. Um concurso é lançado e várias propostas de bandeira são apresentadas.
As propostas de bandeira nacional apresentadas em 1910.

     Em 1911, o novo estandarte nacional recebe aprovação constitucional: vermelho, para lembrar a conquista, a vitória e o sangue; verde, cor da esperança, simbolizando a importante mudança então vivida no país; a esfera armilar, apanágio dos Descobrimentos; as cinco quinas, homenageando os defensores da independência portuguesa durante a História; os sete castelos, representativos da fundação da nação portuguesa.
O projeto adotado. A atual bandeira nacional.

     Além da bandeira, o governo republicano adotou também uma nova moeda, o escudo, e um novo hino – A Portuguesa, a marcha composta em 1890 em resposta ao Ultimato Inglês.
Moeda de 1 escudo (1916)


Para saber mais:
http://www.ensina.rtp.pt/artigo/d-manuel-ii-1889-1932/
http://www.ensina.rtp.pt/artigo/5-de-outubro-1910/
http://www.centenariorepublica.pt/

Fonte: Ruben Castro e Ricardo Ferrand, Grandes datas de Portugal (1096-2007), Texto Editores, Lisboa, 2011.

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Efemérides da História Lusófona: #5 A Restauração da Independência (01 de dezembro de 1640)

– Após 60 anos, Portugal expulsa os Espanhóis –
     Os primeiros anos de governo de Filipe I foram, em geral, bem aceites pelos Portugueses, apesar do desejo de Portugal ter um rei português não ter desaparecido. Porém, Espanha era um país rico e poderoso; Filipe I cumpriu as promessas que fizera em Tomar e Portugal parecia estar a recuperar dos problemas provocados pelo mau governo de D. Sebastião.
     Esta situação começou a mudar quando Filipe II (III de Espanha) subiu ao trono. Espanha enfrentava problemas económicos sérios: a quantidade de prata que chegava da América estava a diminuir e eram necessários cada vez mais impostos para suportar as despesas do império ultramarino. Os impostos aumentaram bastante em Espanha e em Portugal. Além disso, Filipe II nomeou, para o Conselho de Portugal, minitros espanhóis, quebrando a promessa que Filipe I fizera em Tomar. A situação piorou ainda mais no reinado de Filipe III (IV de Espanha). Os impostos continuaram a aumentar, os ataques dos Ingleses, Franceses e Holandeses (inimigos de Espanha) fizeram perder muitos territórios do império português e muitos portugueses foram obrigados a juntar-se aos exércitos espanhóis nas suas guerras na Europa. Em 1637, surgiram revoltas em Évora e no Algarve contra o governo espanhol. Em 1640, uma conspiração de alguns membros da nobreza conseguiu finalmente o apoio de D. João, duque de Bragança, neto de D. Catarina.
     Os conspiradores, com a promessa de ajuda de França, e num momento em que Espanha tinha de resolver revoltas internas, decidiram colocar o seu plano em prática. No dia 1 de dezembro, foram ao palácio real de Lisboa e prenderam a duquesa de Mântua, prima do rei, que governava Portugal como vice-rainha, assim como foi morto o seu secretário de Estado, Miguel de Vasconcelos (reza a história que, depois de morto, o corpo terá sido defenestrado de uma das janelas do palácio real). O duque de Bragança foi então aclamado rei nas ruas de Lisboa, com o título de D. João IV. Portugal recuperara a independência.
A proclamação de D. João IV, por Columbano Bordalo Pinheiro

– D. João IV –
     D. João IV nasceu em Vila Viçosa, em 1604, filho de D. Teodósio, duque de Bragança. Era neto de D. Catarina, uma das pretendentes ao trono depois da morte do cardeal-rei D. Henrique. Duque de Bragança e descendente de D. Manuel I, D. João era o nobre mais poderoso de Portugal. Desde muito cedo, tentaram aproximá-lo de Espanha, para que não fosse “tentado” a reclamar o direito ao trono português. Casou com uma dama de uma das mais importantes famílias espanholas, D. Luísa de Gusmão. Em 1639, foi nomeado governador militar de Portugal, sendo responsável por recrutar os soldados portugueses que se deviam juntar ao exército espanhol, o que podia torná-lo muito impopular junto da população portuguesa.
Estátua equestre de D. João IV, frente ao palácio ducal de Vila Viçosa

     D. João, porém, soube manter uma certa neutralidade e, quando começou a conspiração que pretendia derrubar o governo espanhol, foi convidado para ser o seu líder. D. João, apesar de algumas dúvidas, acabou por aceitar. Quando a conspiração saiu vitoriosa, foi aclamado rei em Lisboa, a 15 de dezembro de 1640. Com ele iniciou-se a quarta Dinastia de Portugal: a de Bragança.
     Mas a luta pela independência não terminou ali. A guerra com Espanha durou 28 anos e foi preciso um esforço militar e financeiro muito grande para ganhá-la. Este esforço impediu que Portugal conseguisse defender muitos do seus territórios ultramarinos, perdendo-os para os Holandeses e os Franceses. Recuperada a independência, havia, porém, ainda muito para fazer. D. João IV morreu em 1656. Sucedeu-lhe o filho, D. Afonso VI.
Bandeira de D. João IV

– A mentira –
     Lamego, cidade da Beira Alta, ficou ligada à restauração da independência por algo que nunca existiu. Para justificar o direito de D. João IV a reclamar o trono, de modo a não parecer um usurpador, apresentaram-se as atas de uma reunião de Cortes que teria acontecido em Lamego, em 1143 (no tempo de D. Afonso Henriques). Estas atas (que não passavam de uma falsificação feita por volta de 1632) diziam que as mulheres não podiam nem herdar a Coroa nem transmitir direitos sucessórios a ela, a menos que tivessem casado com nobres portugueses. Isto queria dizer que Filipe II não podia ter sido escolhido rei. D. João IV limitar-se, por isso, a restaurar a linha legítima de sucessão ao trono – daí o nome de Restauração.

– A hora do chá –
     Para conseguir que a restauração da sua independência fosse reconhecida pelos outros países europeus, Portugal fez muitos esforços diplomáticos. Um deles levou ao casamento de D. Catarina, filha de D. João IV, com o rei de Inglaterra, Carlos II. Uma das coisas que D. Catarina levou para Inglaterra foi o hábito de beber chá, que viria a tornar-se uma espécie de “bebida nacional” inglesa...
D. Catarina de Bragança, rainha de Inglaterra, por Peter Lely, 1663-1165
Fonte: Ruben Castro e Ricardo Ferrand, Grandes datas de Portugal (1096-2007), Texto Editores, Lisboa, 2011.

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Efemérides da História Lusófona: #3 A independência de Angola (11 de novembro de 1975)


     No dia 11 de novembro de 1975, Angola proclama a sua independência. Se este dia marca o nascimento de um novo país, ao mesmo tempo que o encontro de uma nação com um Estado ainda por criar, assinala também o término da presença portuguesa. Em 1485, Diogo Cao alcançara as margens do rio Congo onde deixara a marca da sua passagem (ver Pedra de Ielala). Cerca de cinco séculos depois chega ao fim uma história comum, cheia de sofrimento, dramas, injustiças mas também de cooperação, enriquecimento mútuo, interculturalidade e de humanidade.

Brasão da Província Ultramarina de Angola

     É António Agostinho Neto, médico, escritor e líder do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), quem proclama solenemente a independência do país.
Agostinho Neto: «o MPLA proclama solenemente perante a África e o Mundo, a independência de Angola», 11/11/1975

Discurso de proclamação da independência
     No contexto do movimento de libertação de Angola, os escritores, e em particular os poetas, tiveram um papel muito importante na luta contra o colonizador português; vozes que denunciaram a condição do povo negro, a descriminação de que era alvo e todo o seu sofrimento.
     Deixemos a palavra aos poetas deste nosso povo irmão:

ADEUS À HORA DA LARGADA (1951) António Agostinho Neto
Minha mãe
(todas as mãe negras
cujos filhos partiram)
tu me ensinaste a esperar
como esperaste nas horas difíceis

Mas a vida
matou em mim essa mística esperança

Eu já não espero
sou aquele por quem se espera

Sou eu minha Mãe
a esperança somos nós
os teus filhos
partidos para uma fé que alimenta a vida

Hoje
somos as crianças nuas das sanzalas do mato
os garotos sem escola a jogar a bola de trapos
nos areias ao meio-dia
somos nós mesmos
os contratados a queimar vidas nos cafezais
os homens negros ignorantes
que devem respeitar o homem branco
e temer o rico
somos os teus filhos
dos bairros de pretos
além aonde não chega a luz elétrica
os homens bêbedos a cair
abandonados ao ritmo dum batuque de morte
teus filhos
com fome
com sede
com vergonha de te chamarmos Mãe
com medo de atravessar as ruas
com medo dos homens Bandeira de Angola
nós mesmos

Amanhã
entoaremos hinos à liberdade
quando comemorarmos
a data da abolição desta escravatura

Nós vamos em busca de luz
os teus filhos Mãe
(todas as mães negras
cujos filhos partiram)
Vão em busca de vida.

CONSCIENCIALIZAÇÃO (1951) António Agostinho Neto
Medo no ar!

Em cada esquina
sentinelas vigilantes incendeiam olhares
em cada casa
se substituem apressadamente os fechos velhos
das portas
e em cada consciência
fervilha o temor de se ouvir a si mesma

A História está a ser contada
de novo

Medo no ar!

Acontece que eu
homem humilde
ainda mais humilde na pele negra
me regresso Àfrica
para mim
com os olhos secos.

PRELÚDIO (1951) ALDA LARA

(para a Lydia – minha velha ama negra)

Pela estrada desce a noite
Mãe-Negra, desce com ela...

Nem buganvílias vermelhas,
nem vestidinhos de folhos,
nem brincadeiras de guisos,
nas suas mãos apertadas.
Só duas lágrimas grossas,
em duas faces cansadas.

Mãe-Negra tem voz de vento,
voz de silêncio batendo
nas folhas do cajueiro...

Tem voz de noite, descendo,
de mansinho, pela estrada...

Que é feito desses meninos
que gostava de embalar?...

Que é feito desses meninos
que ela ajudou a criar?...
Quem ouve agora as histórias
que costumava contar?...

Mãe-Negra não sabe nada...
Mas ai de quem sabe tudo,
como eu sei tudo
Mãe-Negra!...

Os teus meninos cresceram,
e esqueceram as histórias
que costumavas contar...

Muitos partiram p'ra longe,
quem sabe se hão-de voltar!...

Só tu ficaste esperando,
mãos cruzadas no regaço,
bem quieta bem calada.

É a tua a voz deste vento,
desta saudade descendo,
de mansinho pela estrada…



O RITMO DO TANTÃ (1970) António Jacinto
O ritmo do tantã não o tenho no sangue
nem na pele
nem na pele
tenho o ritmo do tantã no coração
no coração
no coração
o ritmo do tantã não tenho no sangue
nem na pele
nem na pele
tenho o ritmo do tantã sobretudo
mais do que pensa
mais do que pensa
Penso África, sinto África, digo África
Odeio em África
Amo em África
Estou em África
Eu também sou África
tenho o ritmo do tantã sobretudo
no que pensa
no que pensa
penso África, sinto África, digo África
E emudeço
dentro de ti, para ti África
dentro de ti, para ti África
África
           África
                       África.

Efemérides da História Lusófona: #2 O fim da "Grande Guerra" (11 de novembro de 1918)

– Portugal entre os vencedores –
A Primeira Guerra Mundial. blocos e frentes de combate
     Em 1910, quando a República foi implantada em Portugal, os conflitos entre as maiores potências europeias tinham-se agravado. A Inglaterra, a França e a Alemanha disputavam territórios em África e, na Europa, a Alemanha tentava tornar-se a potência dominante. Destes conflitos surgiram dois blocos de potências adversárias – de um lado, a Inglaterra, a França e o Império Russo: a Tríplice-Entente; do outro, o Império Alemão, o Império Austro-Húngaro e o Reino de Itália: a Tríplice-Aliança.
A Tríplice-Aliança, Le Petit Journal, 25/10/1896
Alegoria da Tríplice-Entente (cartaz russo de 1914)
     Em 1914, o assassínio do arquiduque Francisco Fernando, herdeiro do trono austro-húngaro, fez desencadear uma guerra entre estes dois blocos – seria a Primeira Guerra Mundial. No início, Portugal, aliado da Inglaterra, permaneceu fora do conflito, embora tivesse de defender as suas colónias em África de ataques dos alemães. O governo do novo Partido Democrático (oriundo da cisão do Partido Republicano Português) acreditava que a Triplíce-Entente sairia vencedora. Defendia, por isso, a entrada de Portugal na guerra de modo a garantir, no final do conflito, a posse das suas colónias. Porém, muitos dos oficiais das forças armadas portuguesas não concordavam por acharem que as tropas portuguesas não estavam preparadas para um conflito deste tipo. Em 1916, contudo, os Aliados pediram a Portugal que apreendesse os navios alemães ancorados em portos portugueses. Portugal concordou e a Alemanha declarou-lhe guerra. Foi então decidido criar um corpo militar, em 1916, para ser enviado para a linha da frente de combate, em França – o Corpo Expedicionário Português (CEP).
Partida do CEP para França. Cais de Santa Apolónia em Lisboa, janeiro de 1917.

     Houve, no entanto, muitas dificuldades na formação deste corpo, em homens e em material. Apesar de ter recebido formação militar no tempo recorde de nove meses (o chamado “Milagre de Tancos”, a base militar onde decorreu a formação) e de ter armas fornecidas por Inglaterra, o CEP chegou a França mal preparado, com oficiais pouco motivados e até descontentes com a participação portuguesa nesta guerra. As dificuldades aumentaram já na frente de combate, em França, no início de 1917: o inverno rigoroso, as rações inglesas de que os soldados portuguesas não gostavam e, principalmente, a falta de tropas que rendessem os soldados na linha da frente. Estes problemas contribuíram para que, no dia 9 de abril de 1918, as tropas portuguesas sofressem uma pesada derrota na Batalha de La Lys. A participação de Portugal na Primeira Guerra Mundial, bem como a derrota nesta batalha, contribuíram para agravar a situação delicada do país.
     No dia 11 de novembro de 1918, a Alemanha oficializa a sua rendição com a assinatura do Armistício, em Compiègne (Oise).


– La Lys –
     A Batalha de La Lys teve lugar nas planícies junto ao rio Lys, na região fronteiriça entre a França e a Bélgica (Flandres). Esta região foi uma das principais áreas de combate durante toda a Primeira Guerra Mundial. Os exércitos inimigos (impérios alemão e austro-húngaro de um lado e os Aliados – França, Inglaterra e Bélgica – do outro) estavam dispostos ao longo de linhas fortificadas por trincheiras com vários quilómetros de extensão.
O Corpo Expedicionário Português nas trincheiras de La Lys.

     Na região do Lys havia duas linhas de trincheiras que se estendiam por mais de 55 km: a segunda linha ficava a 200-300 metros da primeira. Uma terceira linha, na retaguarda, já sem trincheiras, ficava entre 500 a 1000 metros da segunda. O CEP defendia uma parte destas linhas fortificadas. A ofensiva alemã aconteceu no dia em que as tropas portuguesas iriam ser rendidas na linha da frente. Comandadas pelo general Gomes da Costa, estavam cansadas, mal equipadas e desmotivadas. Apesar disso, resistiram mais de 24 horas, sofrendo pesadas baixas (mais de 7000 homens, entre mortos, feridos e prisioneiros), mas contribuíram com a sua resistência para que o ataque alemão não tivesse resultados piores para os Aliados.


– A participação brasileira –

     A 4 de agosto de 1914, a República Brasileira declara a sua neutralidade no conflito querendo, assim, garantir a continuidade do comércio das suas mercadorias, principalmente o café. Alastrando-se a vários continentes, a guerra põe em causa a sustentabilidade da economia brasileira que se concentrava maioritariamente na exportação da produção cafeeira. Não sendo um bem de primeira necessidade, o seu comércio diminuiu fortemente. A Inglaterra chega mesmo a proibir a sua importação, em 1917, a fim de libertar espaço no porão dos navios para mercadorias mais essenciais. Contudo, o estado de neutralidade iria alterar-se a partir de 1917. O patrulhamento cerrado dos litorais atlânticos por parte da frota submarina alemã leva a frequentes torpedeamentos de navios mercantes e paquetes. Ficou célebre o caso do paquete britânico Lusitânia, afundado por submarinos da marinha alemã, em 1915. Da mesma forma serão destruídas várias embarcações brasileiras.
O presidente da República do Brasil, Venceslau Brás, declara guerra à Alemanha e aos seus aliados.


     A 5 de abril de 1917, o navio mercante brasileiro Paraná é torpedeado junto à costa normanda e, na sequência, o Brasil quebra as suas relações diplomáticas com o Império Alemão. Seguem-se novos afundamentos: a 20 de maio de 1917, o navio Tijuca (o que leva o governo brasileiro a confiscar dezenas de embarcações alemãs ancoradas em portos brasileiros, como indemnização); a 27 de julho, é a vez do navio a vapor Lapa; a 23 de outubro, o cargueiro Macau, junto à costa espanhola, e que leva ao aprisionamento do comandante do navio. Na sequência, e face à intensa pressão popular que se fazia sentir no Brasil há já vários meses, o presidente da República, Venceslau Brás, declara guerra à Alemanha e aos seus aliados no dia 26 de outubro de 1917. Ainda a 4 de novembro, são torpedeados os navios Guaíba e Acari. São abertos os portos brasileiros às forças navais aliadas, assim como incumbe à marinha brasileira o patrulhamento do Atlântico Sul. Várias forças brasileiras integram as áreas de confronto na frente ocidental: a Força Aérea brasileira junta-se à Royal Air Force britânica, a Marinha atua, em auxílio dos ingleses, nas imediações do Estreito de Gibraltar; uma missão médica é enviada para França para auxiliar o corpo médico aliado; um contingente de oficiais serve junto do Exército francês.
     Nas conferências de paz que assinalam o fim da guerra, em Paris e em Versalhes, a representação brasileira garante reparações de guerra, em particular no que se refere aos navios afundados e às mercadorias destruídas.


– Sidónio Pais –

     Nasceu em 1872, em Caminha. Seguiu a carreira militar, mas viria a tornar-se também professor de Cálculo diferencial na Universidade de Coimbra. Defensor das ideias republicanas desde os tempos de estudante, fez parte de dois governos republicanos após a implantação da República. Em 1912 assumiu o cargo de ministro de Portugal na Alemanha, onde ficou até 1916 (ano em que a Alemanha declarou guerra a Portugal). Foi depois de regressar a Portugal que Sidónio Pais começou a ganhar maior destaque na vida política portuguesa. Tornou-se um dos principais líderes da contestação aos governos republicanos, à sua incapacidade para resolver os problemas dos Portugueses e à constante agitação política.
Sidónio Pais à entrada da Sé de Lisboa por altura do ofício religioso em memória dos soldados portugueses mortos em França.



     No dia 5 de dezembro de 1917, Sidónio Pais liderou um golpe de Estado que derrubou o governo republicano. Instaurou uma ditadura militar e assumiu o cargo de presidente da República. Tornou o regime mais presidencialista e apareceu como o homem forte que iria pôr ordem no país – era a “República Nova”. Inicialmente, teve grande apoio popular, com enormes multidões a recebê-lo onde quer que fosse. Porém, a continuação da participação de Portugal na guerra, as perseguições a opositores do regime e as dificuldades económicas rapidamente acabaram com este “estado de graça”. Voltaram as greves, os protestos e a agitação constante. A 5 de dezembro, um ano depois do golpe, Sidónio Pais escapou a um atentado. Contudo, pouca mais de uma semana depois, ao chegar à Estação do Rossio para embarcar com destino ao Porto, já não conseguiu escapar. As balas disparadas por José Júlio Costa no dia 14 de dezembro de 1918 acertaram no alvo e os tiros foram mortais.


Fontes:
Rúben Castro e Ricardo Ferrand, Grandes datas de Portugal (1096-2007), Texto Editores, Lisboa, 2011.
http://www.grandesguerras.com.br/artigos/text01.php?art_id=68
http://pt.wikipedia.org/wiki/Brasil_na_Primeira_Guerra_Mundial

domingo, 1 de novembro de 2015

Efemérides da História Lusófona: #1 O Grande Terramoto (01 de novembro de 1755)

– Lisboa devastada no Dia de Todos os Santos –

     D. José I sobe ao trono em 1750, procurando seguir as políticas do pai, D. João V, continuando a fortalecer o poder real. Esta política, porém, tinha de enfrentar as dificuldades económicas que estavam a surgir, a começar pela diminuição das remessas de ouro que chegavam do Brasil. Esta situação piorou no dia 1 de novembro de 1755. Nesse dia, pelas 09h30 da manhã, o sul de Portugal foi atingido por um violento terramoto. Em Lisboa, as igrejas estavam cheias, pois era Dia de Todos os Santos. Quando o terramoto se fez sentir, milhares de edifícios, entre eles muitas dessas igrejas, ruíram, matando muitos dos que estavam no seu interior [Os geólogos modernos presumem que possa ter atingido uma magnitude de 9 na escala de Richter (1-10)]. As águas do Tejo, recuando por ação do terramoto, abateram-se depois sobre a cidade numa onda gigante, que se pensa ter atingido mais de 20 metros de altura, um maremoto. Logo em seguida deflagrou um enorme incêndio que alastrou pelo centro da cidade e durou seis dias. Esta destruição provocou mais de dez mil mortos e deixou mais de meia cidade completamente destruída. Entre os edifícios que ruíram estava o Paço da Ribeira (o palácio onde residia o rei) e a Casa da Índia, onde funcionava a alfândega. Noutros pontos do país a destruição foi também muito violenta, em especial no Algarve. 


O Terreiro do Paço em 1650, por Dirk Stoop, 1650

     Do governo de D. José I fazia parte Sebastião José de Carvalho e Melo. Este tomou o comando das operações no seguimento da destruição provocada pelo terramoto, respondendo rápida e decididamente a esta calamidade. Ficou célebre a resposta que terá dado quando lhe perguntaram o que se devia fazer: «Enterrar os mortos e cuidar dos vivos.» Este governante ficou mais tarde conhecido como Marquês de Pombal. O terramoto, além custar muitas vidas, causou muitos danos e destruição em edifícios, tesouros artísticos, bibliotecas e arquivos que se perderam. Além disso, iria exigir muito dinheiro para a reconstrução, em especial de Lisboa. A notícia do terramoto espalhou-se depressa pela Europa, onde provocou grande espanto e emoção.

O terramoto de Lisboa (gravura do século XIX)

– O Marquês de Pombal –

     Sebastião José de Carvalho e Melo nasceu em 1699, filho de uma família nobre, mas de poucas posses. Terá estudado na Universidade de Coimbra e casou com uma viúva da alta nobreza, bastante mais velha e rica. Em 1739, foi nomeado embaixador em Londres e, em 1745, em Viena. De volta a Portugal, em 1750, foi nomeado para o governo de D. José I como secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Guerra. A sua ação enérgica na resposta ao terramoto levou o rei a nomeá-lo primeiro-ministro. A partir daí, Carvalho e Melo seguiu uma política de afirmação do poder real, que se chamou “despotismo esclarecido”. Atacou o poder da nobreza, mandando executar muitos membros da família dos Távora e outros nobres, acusados de quererem atentar à vida do rei. Expulsou os jesuítas de Portugal e dos territórios ultramarinos. Processa uma profunda reforma do ensino em Portugal, em particular com os novos Estatutos da Universidade de Coimbra, em 1772.

O Marquês de Pombal iluminando e reconstruíndo Lisboa, por Louis-Michel van Loo e Claude J. Vernet, 1766

     Para tentar resolver a crise económica, fundou companhias comerciais, criou e reorganizou muitas manufaturas e criou a Companhia Geral das Vinhas do Alto Douro, que controlava a produção e comercialização do vinho do Porto. Muitas destas decisões ajudaram a fortalecer a posição da burguesia na sociedade portuguesa. Em 1769 recebeu o título de Marquês de Pombal. Com a morte de D. José I, foi afastado do poder e obrigado a ficar, desterrado, em Pombal. Morreu em 1782. Ainda hoje a sua ação é elogiada por uns e criticada por outros.

– A Baixa Pombalina –

     Lisboa foi um dos locais mais afetados pelo terramoto. Grande parte da cidade ficou destruída. Na reconstrução seguiram-se ideias modernas de urbanismo: ruas largas, compridas e a direito, passeios para peões, edifícios com altura (4 ou 5 pisos) e fachadas semelhantes, com lojas nos pisos inferiores e residências nos superiores. Criou-se também uma rede de esgotos, para melhorar a higiene na cidade. O Terreiro do Paço foi rebatizado Praça do Comércio em homenagem aos comerciantes que contribuíram para a reconstrução da cidade, mas no centro da praça foi colocada uma estátua do rei D. José I, para afirmar a autoridade real. 
     A ação do Marquês de Pombal na reconstrução de Lisboa foi tão importante que a zona da Baixa ainda hoje lembra o seu nome: a Baixa Pombalina.

Planta para a reconstrução da Baixa de Lisboa
Fontes:
Rúben Castro e Ricardo Ferrand, Grandes datas de Portugal (1096-2007), Texto Editores, Lisboa, 2011.
http://pt.wikipedia.org/wiki/Sismo_de_Lisboa_de_1755
http://www.museudacidade.pt/Esposicoes/Permanente/Paginas/Terramoto-de-1755-Reconstrucao-sec-XVIII%E2%80%93XIX.aspx

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Efemérides da História Lusófona: #10 Assassinaram o «general sem medo»!

Não podíamos deixar de assinalar os 50 anos decorridos sobre a morte do general Humberto Delgado. O “General sem medo”, como foi apelidado, fizera tremer decisivamente o regime salazarista, em forma de prelúdio à Revolução de Abril. As eleições presidenciais de 1958 fizeram entrar Humberto Delgado no Panteão dos Grandes Homens da Nação Portuguesa.

– Humberto Delgado, um oficial do regime –

     Nascido em 1906, em São Simão de Brogueira, concelho de Torres Novas, Humberto Delgado seguiu uma brilhante carreira militar, chegando a general com apenas 47 anos. Aos 20 anos, na Escola Prática de Artilharia de Vendas Novas, envolveu-se no movimento de 28 de maio de 1926. Já durante o Estado Novo, exerceu cargos de destaque como adjunto militar do Comando Geral da Legião Portuguesa, comissário nacional adjunto da Mocidade Portuguesa (duas organizações criadas em pleno Estado Novo, em 1936) ou ainda como representante de Portugal em Washington, junto da OTAN.
     Em 1958, foi o candidato da oposição às eleições presidenciais. O apoio que conseguiu da população foi o mais expressivo que a oposição ao regime tinha tido até aí. Salazar sentiu-se verdadeiramente ameaçado pelo general que, pela sua campanha corajosa e frontal, ficou conhecido como o “General sem medo”. Os resultados oficiais deram-lhe apenas 25% dos votos, mas Humberto Delgado afirmou ter havido fraude e ser ele o verdadeiro vencedor. Perseguido pelo Regime, acabou por se refugiar no Brasil.

Humberto Delgado e Henrique Delgado, em 1961
http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_115252 (2015-02-10)


     Em 1961, em conjunto com outro militar, o capitão Henrique Galvão, levou a cabo o sequestro do paquete Santa Maria, em protesto contra o regime de Salazar. Algum tempo mais tarde, instalou-se na Argélia. Em 1965, quando tentava entrar em Portugal (disfarçado – pois ainda era perseguido pelo Regime), foi assassinado em Espanha, perto da fronteira portuguesa, por elementos da polícia política, a PIDE (a ação, organizada pelo agente Rosa Casaco, fora apelidada de “Operação Outono”).

– Delgado é candidato!  A oposição acredita conseguir derrubar Salazar –

     A partir de 1933, Portugal viveu sob um regime autoritário, com características próprias de uma ditadura: os partidos políticos e os sindicatos foram proibidos, a imprensa era censurada e a polícia política perseguia os opositores ao regime (muitos foram torturados e alguns até assassinados). Em 1939, deflagrou a IIª Guerra Mundial, um conflito que opôs, de um lado, os Estados do Eixo – Alemanha, Itália (Estados fascistas pelos quais Salazar tinha alguma simpatia) e Japão – e do outro, os Aliados – França, Inglaterra, URSS e Estados Unidos.
     A Alemanha, liderado por Hitler, invadiu vários países europeus procurando afirmar o seu poder no continente. A derrota dos regimes autoritários (como Portugal) contra as democracias liberais levou a oposição ao Estado Novo a acreditar na possibilidade de derrubar Salazar. Este, em 1945, pressionado pela situação internacional, convocou eleições legislativas, dizendo mesmo que seriam «tão livres como na livre Inglaterra». A oposição organizou-se no MUD (Movimento de Unidade Democrática) e conseguiu grande apoio popular. Porém, a única condição dada pelo regime à oposição foi aliviar um pouco a censura. Sem possibilidades de se opor à União Nacional (o partido do regime, e único), o MUD retirou as candidaturas. Nas eleições presidenciais de 1949, a oposição apresentou também um candidato, o general Norton de Matos. Apesar do apoio popular que recebeu, decidiu, pelas mesmas razões, desistir à boca das urnas. O regime, entretanto, perseguiu muitos dos que tinham apoiado os candidatos da oposição.

Fotografia oficial do candidato Humberto Delgado à Presidência da República

     Em 1958, nas eleições presidenciais, o candidato da oposição foi o general Humberto Delgado. A sua candidatura foi o grande momento da oposição ao regime de Salazar. O general conseguiu atrair um imenso apoio popular. Onde quer que fosse, era recebido em apoteose por imensuráveis multidões. Embora o vencedor das eleições (que muitos observadores e a oposição consideraram fraudulentas) viesse a ser o candidato da União Nacional, Américo Tomás, o Estado Novo tremeu.

– «Obviamente demito-o» –

     A figura do Presidente da República fora sempre subalternizada durante o período do Estado Novo, no entanto, a Constituição de 11 de abril de 1933, em vigor por alturas das eleições de 1958, atribuía ao Presidente da República alguns poderes significativos: em particular, o artigo 81º que indica, no seu primeiro ponto, que compete ao Presidente da República «Nomear o Presidente do Conselho e os Ministros de entre os cidadãos portugueses, e demiti-los.» Afinal, o que estava em jogo no dia 8 de junho de 1958, dia da votação, era decisivo para a continuidade do regime.

Humberto Delgado durante a sua famosa intervenção no Café Chave d'Ouro

     Na conferência de imprensa convocada para o Café Chave d’Ouro em Lisboa, a 10 de maio, perguntaram a Humberto Delgado o que faria com Salazar se fosse eleito. O general respondeu com a sua habitual frontalidade: «Obviamente, demito-o». A candidatura tornara-se uma ameaça séria ao Estado Novo, tão séria que após estas eleições a lei eleitoral foi alterada. O Presidente da República passou a ser eleito por um colégio eleitoral em vez do sufrágio direto dos cidadãos. 

– «Euforia no Porto» –

     A campanha eleitoral desenvolvida por Delgado irrompe na monotonia política portuguesa de forma avassaladora, pelo radicalismo das suas propostas e, em larga medida, pelo dinamismo com o qual as derrama por todo o país; Le Figaro, de forma caricatural, apresenta-o como o «général dynamite». Habituada aos enfadonhos comícios e reuniões eleitorais, enclausurados em recintos fechados, a população portuguesa depara-se com a agressividade da propaganda de rua organizada pela candidatura oposicionista. Humberto Delgado leva para junto da população as suas palavras de ordem, o seu carisma e o seu dinamismo destemido que lhe valerão o célebre cognome de «general sem medo». Esta nova forma de “fazer política” não será, com certeza, alheia à passagem do general pelos Estados Unidos, num período em que vira a ascensão de Dwight “Ike” Eisenhower à presidência da nação americana, também ele militar, cuja campanha ficara famosa pelo célebre lema “I like Ike”. É uma campanha “à americana” que o “general sem medo” inicia no Café Chave d’Ouro, em Lisboa.

Cartaz de propaganda eleitoral da campanha de Humberto Delgado fazendo eco da manifestação,
de 14 de maio na cidade do Porto
http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_114181 (2015-02-10)

     Humberto Delgado percorreu o país de norte a sul. Em todos os locais conseguiu sempre atrair enormes multidões que queriam ver de perto o já famoso “general sem medo”. Mas foi no Porto que aconteceu a maior receção. Vasco da Gama Fernandes, na sua obra Depoimento Inacabado, descreve o acontecimento que presenciou: «O general era arrastado por mais de duzentas mil pessoas, na maior apoteose a que até hoje assisti. […] Na praça da Batalha e na avenida, a multidão não se cansava de o vitoriar, com vivas à República, à liberdade e ao “general sem medo” […] centenas de pessoas que, até alta madrugada, permaneceram na frente do hotel e fizeram frente à Guarda Republicana e à polícia de choque, que não conseguiram dispersar os manifestantes.»

PARA SABER MAIS:
http://ensina.rtp.pt/artigo/obviamente-demito-o-documentario/
http://ensina.rtp.pt/artigo/humberto-delgado-presidenciais/
http://ensina.rtp.pt/artigo/humberto-delgado/


Fontes:
Ruben Castro e Ricardo Ferrand, Grandes datas de Portugal (1096-2007), Texto Editores, Lisboa, 2011.
Paulo Miguel Guerra, As eleições de 1958 e a imprensa francesa, Faculdade de Letras da Univ. de Coimbra, Coimbra, 2004.

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Efemérides da História Lusófona: #9 Lisboa conquistada aos Mouros (25 de outubro de 1147)

– Portugal cresce para sul –
     Reconhecido o reino de Portugal (com o Tratado de Zamora em 1143), era necessário continuar a aumentar o território reconquistando mais terras aos Mouros. A capital de Portugal ficava então em Coimbra (a primeira capital do reino independente), junto do rio Mondego que marcava a fronteira do reino. A partir daqui seriam lançadas novas campanhas contra os Mouros. A expansão do território fez-se para sul, procurando sempre tomar as cidades mais importantes, que funcionariam depois como bases de apoio a novas conquistas. Após a reconquista de Leiria, em 1145, tornou-se mais fácil planear a tomada das cidades situadas junto do rio Tejo, a porta de entrada para o sul. D. Afonso Henriques começou por conquistar Santarém, em março de 1147. O passo seguinte seria a cidade de Lisboa. Era uma das maiores cidades no ocidente da Península Ibérica, dominando uma região muito grande e rica em produção agrícola. Além disso, estava muito bem defendida pela sua localização geográfica e era também um porto muito importante.
O cerco de Lisboa, aguarela de Alfredo Roque Gameiro (1917)

    Em julho de 1147, D. Afonso Henriques pôs cerco a Lisboa. Os Mouros resistiram durante muito tempo, pois não queriam perder esta grande cidade. Porém, em outubro, contando com a ajuda de guerreiros cristãos (cruzados) vindos do norte da Europa, o monarca português conseguiu finalmente derrotar os Mouros e tomar Lisboa. A 25 de outubro de 1147, D. Afonso Henriques penetra nas muralhas da cidade. A tomada da cidade fora narrado numa carta, De expugnatione Lyxbonensi, da autoria do monge beneditino Osberto de Bawdsey que muito provavelmente acompanhara cavaleiros ingleses rumo às Cruzadas. Lisboa é saqueada pelos Cruzados e as populações muçulmanas retiram-se para sul. Foram também conquistadas Sintra, Almada e Palmela, outras localidades que ajudavam à defesa da cidade. A conquista de Lisboa foi muito importante, pois permitiu a D. Afonso Henriques atravessar o Tejo e iniciar conquistas no Alentejo onde ficavam algumas das cidades muçulmanas mais importantes e também mais ricas como Évora e Beja. Portugal crescia, assim, em direção ao sul (daí a forma alongada do território português). 

– Entalado na porta –
     O cerco a Lisboa durou mais de três meses e os Mouros ofereceram grande resistência aos ataques dos Cristãos. Reza a lenda que a cidade só foi conquistada porque um dos soldados portugueses, de seu nome Martim Moniz, se deixou entalar na porta do castelo para que os seus camaradas de armas conseguissem entrar na fortaleza moura e derrotar os defensores da cidade.
O entalado, escultura de José João Brito na estação Martim Moniz do metropoliano de Lisboa

– Cruzadas e Cruzados –
     No final do século XII, o papa Urbano II pregou à Cristandade a necessidade de se recuperar, das mãos dos Muçulmanos, a Terra Santa (a Palestina), onde se localiza Jerusalém, a cidade onde Jesus Cristo tinha sido morto há mais de mil anos. Muitos nobres europeus, e até mesmo alguns reis (como acontecera com Ricardo I de Inglaterra, o famoso “Coração de Leão”, ou ainda Luís IX de França, o célebre São Luís) responderam ao apelo do Papa e partira para a conquista da Terra Santa. Os guerreiros que participaram nestas expedições militares, a que se deu o nome de Cruzadas, eram conhecidos como cruce signati, os Cruzados – usavam longas túnicas brancas com uma cruz vermelha pintada. Estas expedições militares tiveram, de início, um grande sucesso – os Cristãos conseguiram mesmo conquistar Jerusalém e estabeleceram até alguns estados cristãos na Palestina.
Iluminura do final do século XIII representando o rei de França, São Luís,
partindo para Chipre a caminho da sétima Cruzada (1148)

     Foi com a ajuda de uma expedição de Cruzados que se dirigiam para a Palestina que D. Afonso Henriques conseguiu conquistar a cidade de Lisboa aos Muçulmanos. A Reconquista Cristã era considerada a Cruzada do Ocidente, pelo que foi fácil convencer estes Cruzados a participar neste combate, pois era também para eles um combate em defesa da fé cristã.
Algumas das várias ordens religiosas-militares que se investiram nas Cruzadas


– De Olisipo a Lisboa –
    O local onde hoje se situa a atual capital portuguesa já era habitado desde a Pré-História (Neolítico). Não se conhecem muito bem as origens da povoação que viria a tornar-se Lisboa, mas uma das hipóteses remonta aos Fenícios, povo comerciante do Mediterrâneo, que terão iniciado o povoamento na colina onde hoje se encontra o Castelo de São Jorge. O porto natural de Lisboa, no estuário do Tejo, seria um ótimo abrigo para os navios fenícios nas suas viagens para o norte a Europa. No período romano, a cidade seria chamada Felicitas Iulia Olisipo, ficando conhecido por Olisipo. Não se conhece a origem deste nome, o que fez surgir muitas teorias e lendas, entre as quais a de que a cidade teria sido fundada pelo mítico herói grego Ulisses.
     Lisboa cresceu e, no século XII, quando foi conquistada pelos Cristãos aos Mouros (que então lhe chamavam de Al-Usbuna), era uma das maiores cidades muçulmanas na Península Ibérica. Dizia-se que teria perto de 100 mil habitantes, número muito exagerado já que não deve ter passado dos cinco mil. Apesar da sua importância – quer pela sua localização (dominando o estuário do Tejo e ponto fundamental na ligação entre o norte e o sul) quer por dominar uma região rica e de clima ameno –, só no século XIII, no reinado de D. Afonso III, é que Lisboa viria a ser elevada a capital do reino.
A mais antiga representação conhecida da cidade de Lisboa, presente na Crónica de D. Afonso Henriques
da autoria de Duarte Galvão (inícios do séc. XVI)
Para saber mais:
http://ensina.rtp.pt/artigo/as-cruzadas-e-os-estados-cruzados/
http://portugalglorioso.blogspot.fr/2014/10/25-de-outubro-de-1147-dafonso-henriques.html
http://www.ricardocosta.com/artigo/mentalidade-de-cruzada-em-portugal-secs-xii-xiv
http://pt.wikipedia.org/wiki/Osberno
http://pt.wikipedia.org/wiki/De_expugnatione_Lyxbonensi
http://ensina.rtp.pt/artigo/vestigios-romanos-em-lisboa/