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quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

6ème - A Civilização Egípcia: o papiro

O PAPIRO, A PLANTA QUE SERVE PARA TUDO


     O papiro serve para confecionar as folhas de papel sobre as quais os escribas escrevem. Mas esta planta, símbolo do Egito dos faraós, tem inúmeras utilizações.



Onde crescem os papiros?

Desenvolvem-se nas zonas pantanosas. São particularmente abundantes no delta do Nilo. As suas hastes, de forma triangular, têm a grossura de um braço. Atingem três a quatro metros de altura. Na extremidade, as folhas formam uma larga corola.
A planta do papiro (cyperus papyrus)


A colheita
Começa quando as hastes são suficientemente altas mais ainda flexíveis. Os operários cortam os papiros sem arrancar as raízes. Trabalham na lama, tendo cuidado com as cobras, crocodilos e hipopótamos. Reunidos em molhos, os papiros são em seguida transportados no dorso de bois ou de burros.
Os molhos de papiro eram usados no fabrico de barcas.
Útil para a confeção de barcas
Não há florestas no Egito e a madeira importada é reservada à construção de grandes navios. As barcas são portanto fabricadas com feixes de papiros ligados entre si. As velas e os cordames são também tecidos com papiros.

Como se obtém papel a partir de papiros?
A casca é retirada e a medula (o coração) é cortada em finas lamelas (1 e 2), que são esmagadas com um maço. Depois de terem sido demolhadas em água para amolecerem, as finas tiras obtidas são estendidas a direito e depois cobertas com uma segunda camada disposta no sentido contrário (3). A folha é em seguida abundantemente molhada e bem martelada (4 e 5). Dessa forma, a seiva da planta cola solidamente as tiras entre si. Resta apenas deixar secar esta folha para que ela esteja pronta para ser utilizada (6). As folhas são depois muitas vezes reunidas umas às outras a fim de formarem rolos.
A preparação das folhas de papiro
Um papel resistente
A folha de papiro tem numerosas qualidades: é flexível, enrola-se sem se rasgar, não absorve a tinta e conserva-se muito tempo. Mas essas belas folhas são caras porque demoram muito a fabricar. Os escribas só as utilizavam para copiar textos importantes. Foram encontrados papiros perfeitamente conservados após vários milhares de anos.

Papiros para iluminar, para vestir, para mobilar e para comer!
As hastes secas servem para alimentar o fogo ou construir cabanas. A medula é utilizada como mecha de archote para iluminar. Com a casca, os Egípcios entrançam cestos, esteiras, saiotes, sandálias, gaiolas e os passadores. As hastes jovens são comidas em salada, a medula é assada no forno. Em contrapartida, não se podem dar as folhas aos animais porque são cortantes.

O papiro na arte
Os talhadores de pedra inspiraram-se na forma dos papiros para desenharem e esculpirem as colunas dos templos. Os artistas egípcios representam-nos muitas vezes nas suas pinturas e esculturas.
Colunas com capitéis em forma de papiro (Templo de Hórus, Edfu)
Um símbolo de juventude
O papiro é o símbolo do rejuvenescimento, juventude e da alegria. Faz parte das oferendas apresentadas à divindade com cabeça de vaca, Hator, deusa associada à alegria e ao amor.

ALGUMAS PERGUNTAS
1. No Egito, onde crescem os papiros?
2. Descreve, com palavras tuas, a planta do papiro.
3. Indica três utilizações dadas ao papiro.
4. Porque razão os Egípcios utilizam papiro para construir os seus barcos?

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

6ème - A Civilização Egípcia: o além

A MUMIFICAÇÃO

     Os Egípcios acreditam que uma outra vida começa depois da morte. Mas para que o defunto permaneça imortal, o seu corpo deve conservar a aparência que tinha quando estava vivo.
O embalsamamento. Por vezes, um dos sacerdotes que preside ao embalsamamento usa a máscara de Anúbis.

Por que o corpo deve conservar a sua aparência?
Os Egípcios acreditam que todos os homens possuem uma alma, o Ba, e um duplo invisível, o Ka. Depois da morte, o Ba e o Ka abandonam regularmente o corpo do defunto, viajam e depois regressam ao cadáver. Se o corpo se decompõe, o Ba e o Ka vagueiam sem cessar à sua procura e o morto não pode aceder à vida eterna no Além.

Como é conservado o corpo?
Os Egípcios tinham-se apercebido que quando os corpos dos seus defuntos eram enterrados no deserto, o calor da areia secava a carne. O cadáver conservava assim a sua aparência e não se decompunha. A arte de embalsamar e de mumificar consiste em reproduzir esse fenómeno natural utilizando natrão, um sal que se encontra em abundância no solo do Egito.

A preparação do corpo
O embalsamador extrai o cérebro do crânio com o auxílio de um ferro recurvado que introduz pelas narinas. Por uma incisão feita no ventre retira as vísceras: os pulmões, o fígado, o estômago e os intestinos. Cada um desse órgãos é cuidadosamente envolvido num pano de linho e depositado num vaso canopo. O coração, que é considerado como a parte do corpo na qual se situam os pensamentos e os sentimentos, é retirado, embalsamado e colocado de novo no tórax. Às vezes, é substituído por um escaravelho de pedra em forma de coração.

Vasos canopos. Museu do Louvres, França.

A mumificação
A desidratação do corpo dura cerca de 70 dias, durante os quais o corpo é colocado num banho de natrão. Esse sal mineral retira a água contida na carne. Quando o cadáver está suficientemente seco, o embalsamador limpa-o com óleo, pomadas, especiarias e resina de pinheiro. Enche a cabeça e o corpo de linho e serradura de madeira e depois fecha o corte feito no lado e cobre-o com uma folha de cera de abelha. No lugar dos olhos são colocados pedaços de linho, cera ou pequenas cebolas. Os dedos das mãos e dos pés são por vezes protegidos com folhas de ouro.



Amuletos nas ligaduras
A múmia é em seguida envolta num pano e depois rodeada por ligaduras de linho, unidas umas às outras por outras tiras mais estreitas. Durante esta operação, são introduzidos amuletos nas ligaduras em determinados locais do corpo. O rosto é coberto por uma máscara com a efígie do defunto. A dos faraós é em ouro, os egípcios mais modestos contentam-se com ligaduras de linho e folhas de papiro coladas umas às outras e cobertas de gesso. São colocadas flores e folhas de palmeira sobre o corpo.

Múmia de Ramsés II. Museu do Cairo, Egito. Encontrada no século XIX em perfeito estado de conservação, a múmia de Ramsés II,  vítima de um fungo de cogumelo ao contacto do ar moderno, quase se destruía. Foi salva pela ciência em 1977. 
Os sarcófagos
Durante o Império Antigo, os sarcófagos têm uma forma retangular e são talhados em madeira, no entanto os dos faraós são de granito. A partir do Império Médio, têm a forma de um corpo humano e são construídos com uma espécie de cartão feito com folhas de papiro.

Sarcófago secundário do faraó Tutancamon. Museu do Cairo, Egito.

A PESAGEM DA ALMA

     Os Egípcios pensam que, para aceder ao reino dos mortos, o defunto deve passar pela temível prova da pesagem da alma. Se o seu coração for mais pesado do que a pluma de Maet, será devorado.

O tribunal de Osíris
Conduzido pelo deus Hórus, o defunto é levado junto de Osíris. Sentado no seu trono e rodeado por 42 juízes, Osíris, o deus do Além, preside à cerimónia da pesagem da alma. O defunto deve em primeiro lugar jurar que não cometeu nenhum pecado no decurso da sua vida, que nunca fez mal, que nunca roubou,… Tot, o deus dos escribas, anota as suas respostas.

A pesagem do coração
Para saber se o defunto disse a verdade, o seu coração é colocado num dos dois pratos de uma balança. No outro é colocada a pluma de Maet. Anúbis vigia a pesagem. Se os pratos se equilibram, está provado que o defunto agiu bem. O coração é-lhe restituído e pode entrar no reino dos mortos. Se, pelo contrário, a balança pende para o lado do coração, Ammut, monstro com cabeça de crocodilo, corpo de leão e patas traseiras de hipopótamo, apodera-se do coração e devora-o. O defunto sofre então o pior dos castigos, não chegará ao Além.

O tribunal de Osíris. Papiro de Hunefer. Museu Britânico, Inglaterra.
O que acontece ao defunto no reino dos mortos?
Durante o dia, permanece no seu túmulo. Entretanto, o seu Ba (alma) viaja e visita a sua família, À noite, o defunto sobe para a barca de Ré e de manhã regressa ao seu túmulo, alimenta-se e repousa. Todos os Egípcios desejam atingir o reino de Osíris depois da sua morte.



ALGUMAS PERGUNTAS
1. Explica, por palavras tuas, como são conservados os corpos dos defuntos.
2. Para que servem os vasos canopos?
3. Descreve, com as tuas próprias palavras, a cerimónia da pesagem da alma.

6ème - A Civilização Egípcia: a vida quotidiana

VESTIR-SE, LAVAR-SE E MAQUILHAR-SE

     Os Egípcios vestem-se ligeiramente: um saiote para os homens, um vestido para as mulheres. Ricos ou pobres, usam jóias que são acima de tudo amuletos.

Vestuário de linho branco
O vestuário é confecionado em linho. Trata-se de um tecido fresco quando está muito calor e quente quando faz mais frio. A lã é usada muito raramente porque é de origem animal e considerada impura. O tecido é quase sempre branco: os Egípcios utilizam, com efeito, poucos corantes. Alegram o seu aspeto com colares de flores, jóias e contas cosidas.
A moda egípcia

Saiotes e vestidos
Os homens vestem geralmente um saiote seguro na cintura por um simples cordão para os mais pobres e por um belo cinto para os mais abastados. Usam por vezes saias e túnicas. As mulheres envergam vestidos muito justos, presos nos ombros por finas alças. No Império Novo, os vestidos são mais largos e cobertos por uma túnica. As indumentárias de festa distinguem-se pela delicadeza do seu tecido quase transparente e pela elegância das suas pregas.

Pés descalços ou com sandálias?
Os Egípcios só se calçam no interior das casas. No exterior, andam quase sempre descalços, com as sandálias de papiro, ráfia ou junco presas ao cinto ou transportadas por um servo.

Como se lavam os Egípcios?
Devido ao forte calor, os Egípcios lavam-se todos os dias. Nas casas mais ricas, é reservado um compartimento para a sua higiene. O sabão não existe, os Egípcios utilizam um sal extraído do solo ou uma mistura de cinzas e argila. Depois de se terem lavado, homens e mulheres nutrem o corpo com pomadas que amaciam a pele e perfumam-se com essências vegetais.

A arte do penteado
Os homens barbeiam-se com cuidado e mandam cortar o cabelo regularmente. No Império Novo, as mulheres têm os cabelos compridos. Nos dias de festa, tanto uns como outros usam perucas perfumadas e compostas por cabelos verdadeiros ou fibras vegetais.

Pente em marfim do faraó Ouadji. Museu do Cairo, Egito.
Uma maquilhagem cuidada
Os homens e as mulheres, e às vezes mesmo as crianças, maquilham-se. Desenham o contorno dos olhos com um traço de khol negro e pó verde extraído da malaquite (um mineral dessa cor). As faces e por vezes os lábios são pintados de vermelho obtido a partir de pós naturais misturados com óleo. A hena, fabricada com uma planta seca e reduzida a pó, é utilizada para tingir os cabelos, as unhas, a palma das mãos e a dos pés. Estas maquilhagens exigem substâncias, por vezes raras, provenientes de longe e que são caras.

As jóias
Todos os Egípcios se adornam com jóias que são supostas protegê-los contra os perigos da vida e, em especial, da má sorte. Os colares mais simples são constituídos por um cordão com uma pequena concha. Os mais ricos usam jóias muito delicadas adornadas com pedras preciosas (lápis-lazúli, turquesa, ametista,…), marfim, prata ou contas de vidro. Os ourives cinzelam anéis, pulseiras, argolas, brincos,...
Colar de Senefer. Museu do Louvres, França.

ALGUMAS PERGUNTAS
1. Com que tipo de material eram confecionadas as roupas dos Egípcios?
2. Explica, por palavras tuas, como se lavavaml os Egípcios.
3. Nos dias de festa, que tipo de penteado usavam?
4. Que materiais são usados pelos ourives?

6ème - A Civilização Egípcia: os hieróglifos

OS HIERÓGLIFOS, IMAGENS PARA ESCREVER
     Os Egípcios não inventaram a escrita. Esta nasceu por volta de 3300 a.C., na Mesopotâmia, a leste do Egito. Os hieróglifos egípcios surgem um pouco mais tarde, cerca de 3100 a.C.

Imagens retiradas da vida quotidiana
A escrita egípcia é constituída por desenhos chamados hieróglifos. Cada um deles foi criado a partir de elementos presentes na vida: um homem, um olho, um pato, uma pena, um junco, um barco, a água, o céu, uma corda,… Durante o Império Antigo, existem cerca de 750 sinais diferentes. Com o correr dos séculos, os escribas acrescentam-lhes novos. Na época de Cleópatra, atingem o número de 2500!


Uma leitura complicada
A escrita egípcia é difícil de ler porque os hieróglifos podem indicar um sentido ou um som. Uma mesma figura pode ser utilizada de várias maneiras. O desenho de um pato, por exemplo, pode querer significar a palavra pato ou um som que entra na composição de uma palavra, mas pode também fazer parte de uma expressão.
Hieróglifos, Templo de Kom Ombo, Egito.

Como decifrar um sinal?
Par saber se um sinal é utilizado como um som ou como uma palavra, os escribas colocam o desenho de um pequeno bastão ao Aldo do sinal: indica que o hieróglifo do pato, por exemplo, representa a palavra pato. Se não houver bastão, é um som. Mas há outra dificuldade: o sinal do pato, associado a outro sinal, pode modificar o sentido.

O sentido da leitura
Outro problema da escrita egípcia: escreve-se e lê-se da esquerda para a direita, ou o inverso, e de cima para baixo, ou o contrário! Para detetar o sentido da leitura é necessário observar como são desenhados os sinais.

Uma escrita sagrada
De acordo com os Egípcios, teria sido o deus Tot a trazer a escrita aos homens. Os hieróglifos têm portanto um caráter sagrado. São reservados aos textos religiosos que figuram nos templos e nos túmulos.

Os hieróglifos decifrados
Cerca de 400 d.C., os templos são fechados. Os sacerdotes desaparecem. Mas ninguém sabe ler a escrita sagrada dos Egípcios. É necessário esperar quinze séculos e a descoberta da Pedra de Roseta… Um oficial de Napoleão Bonaparte descobre esta pedra em 1799, no porto de Roseta, no delta do Nilo. Esta estela comporta um decreto do faraó Ptolomeu V. O texto está redigido em duas línguas, o grego e o egípcio, e em três escritas, o grego antigo, os hieróglifos, e a escrita demótica (uma simplificação da escrita hieroglífica). Em 1822, Jean-François Champollion, um especialista da civilização egípcia, apresenta uma tradução do texto contido na pedra, e por conseguinte uma interpretação dos hieróglifos egípcios. Champollion usa para isso uma cartela real de Ramsés II. Compreende então que os hieróglifos podem ser utilizados pelo seu símbolo ou pelo seu som.
A pedra de Roseta. Museu Britânico, Inglaterra.
Jean-François Champollion, por Auguste Bartholdi, 1875, Collège de France, Paris.


ALGUMAS PERGUNTAS

1. O que indicam os hieróglifos?
2. Explica como são lidos os hieróglifos?

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Abril na imprensa...

Hoje, talvez assim fosse pelos jornais deste mundo...

República, PORTUGAL

The Guardian, GRÃ-BRETANHA

Aftonbladet, SUÉCIA

El País, ESPANHA

Le Monde, FRANÇA 

La Repubblica, ITÁLIA

The New York Times, ESTADOS UNIDOS

Novaya Gazeta, RÚSSIA

Süddeutsche Zeitung, ALEMANHA

Politiken, DINAMARCA

De Volkskrant, PAÍSES BAIXOS

Aftenposten, NORUEGA

Asahi Shinbun, JAPÃO


conceção: Miguel Guerra

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Efemérides da História Lusófona: #2 O fim da "Grande Guerra" (11 de novembro de 1918)

– Portugal entre os vencedores –
A Primeira Guerra Mundial. blocos e frentes de combate
     Em 1910, quando a República foi implantada em Portugal, os conflitos entre as maiores potências europeias tinham-se agravado. A Inglaterra, a França e a Alemanha disputavam territórios em África e, na Europa, a Alemanha tentava tornar-se a potência dominante. Destes conflitos surgiram dois blocos de potências adversárias – de um lado, a Inglaterra, a França e o Império Russo: a Tríplice-Entente; do outro, o Império Alemão, o Império Austro-Húngaro e o Reino de Itália: a Tríplice-Aliança.
A Tríplice-Aliança, Le Petit Journal, 25/10/1896
Alegoria da Tríplice-Entente (cartaz russo de 1914)
     Em 1914, o assassínio do arquiduque Francisco Fernando, herdeiro do trono austro-húngaro, fez desencadear uma guerra entre estes dois blocos – seria a Primeira Guerra Mundial. No início, Portugal, aliado da Inglaterra, permaneceu fora do conflito, embora tivesse de defender as suas colónias em África de ataques dos alemães. O governo do novo Partido Democrático (oriundo da cisão do Partido Republicano Português) acreditava que a Triplíce-Entente sairia vencedora. Defendia, por isso, a entrada de Portugal na guerra de modo a garantir, no final do conflito, a posse das suas colónias. Porém, muitos dos oficiais das forças armadas portuguesas não concordavam por acharem que as tropas portuguesas não estavam preparadas para um conflito deste tipo. Em 1916, contudo, os Aliados pediram a Portugal que apreendesse os navios alemães ancorados em portos portugueses. Portugal concordou e a Alemanha declarou-lhe guerra. Foi então decidido criar um corpo militar, em 1916, para ser enviado para a linha da frente de combate, em França – o Corpo Expedicionário Português (CEP).
Partida do CEP para França. Cais de Santa Apolónia em Lisboa, janeiro de 1917.

     Houve, no entanto, muitas dificuldades na formação deste corpo, em homens e em material. Apesar de ter recebido formação militar no tempo recorde de nove meses (o chamado “Milagre de Tancos”, a base militar onde decorreu a formação) e de ter armas fornecidas por Inglaterra, o CEP chegou a França mal preparado, com oficiais pouco motivados e até descontentes com a participação portuguesa nesta guerra. As dificuldades aumentaram já na frente de combate, em França, no início de 1917: o inverno rigoroso, as rações inglesas de que os soldados portuguesas não gostavam e, principalmente, a falta de tropas que rendessem os soldados na linha da frente. Estes problemas contribuíram para que, no dia 9 de abril de 1918, as tropas portuguesas sofressem uma pesada derrota na Batalha de La Lys. A participação de Portugal na Primeira Guerra Mundial, bem como a derrota nesta batalha, contribuíram para agravar a situação delicada do país.
     No dia 11 de novembro de 1918, a Alemanha oficializa a sua rendição com a assinatura do Armistício, em Compiègne (Oise).


– La Lys –
     A Batalha de La Lys teve lugar nas planícies junto ao rio Lys, na região fronteiriça entre a França e a Bélgica (Flandres). Esta região foi uma das principais áreas de combate durante toda a Primeira Guerra Mundial. Os exércitos inimigos (impérios alemão e austro-húngaro de um lado e os Aliados – França, Inglaterra e Bélgica – do outro) estavam dispostos ao longo de linhas fortificadas por trincheiras com vários quilómetros de extensão.
O Corpo Expedicionário Português nas trincheiras de La Lys.

     Na região do Lys havia duas linhas de trincheiras que se estendiam por mais de 55 km: a segunda linha ficava a 200-300 metros da primeira. Uma terceira linha, na retaguarda, já sem trincheiras, ficava entre 500 a 1000 metros da segunda. O CEP defendia uma parte destas linhas fortificadas. A ofensiva alemã aconteceu no dia em que as tropas portuguesas iriam ser rendidas na linha da frente. Comandadas pelo general Gomes da Costa, estavam cansadas, mal equipadas e desmotivadas. Apesar disso, resistiram mais de 24 horas, sofrendo pesadas baixas (mais de 7000 homens, entre mortos, feridos e prisioneiros), mas contribuíram com a sua resistência para que o ataque alemão não tivesse resultados piores para os Aliados.


– A participação brasileira –

     A 4 de agosto de 1914, a República Brasileira declara a sua neutralidade no conflito querendo, assim, garantir a continuidade do comércio das suas mercadorias, principalmente o café. Alastrando-se a vários continentes, a guerra põe em causa a sustentabilidade da economia brasileira que se concentrava maioritariamente na exportação da produção cafeeira. Não sendo um bem de primeira necessidade, o seu comércio diminuiu fortemente. A Inglaterra chega mesmo a proibir a sua importação, em 1917, a fim de libertar espaço no porão dos navios para mercadorias mais essenciais. Contudo, o estado de neutralidade iria alterar-se a partir de 1917. O patrulhamento cerrado dos litorais atlânticos por parte da frota submarina alemã leva a frequentes torpedeamentos de navios mercantes e paquetes. Ficou célebre o caso do paquete britânico Lusitânia, afundado por submarinos da marinha alemã, em 1915. Da mesma forma serão destruídas várias embarcações brasileiras.
O presidente da República do Brasil, Venceslau Brás, declara guerra à Alemanha e aos seus aliados.


     A 5 de abril de 1917, o navio mercante brasileiro Paraná é torpedeado junto à costa normanda e, na sequência, o Brasil quebra as suas relações diplomáticas com o Império Alemão. Seguem-se novos afundamentos: a 20 de maio de 1917, o navio Tijuca (o que leva o governo brasileiro a confiscar dezenas de embarcações alemãs ancoradas em portos brasileiros, como indemnização); a 27 de julho, é a vez do navio a vapor Lapa; a 23 de outubro, o cargueiro Macau, junto à costa espanhola, e que leva ao aprisionamento do comandante do navio. Na sequência, e face à intensa pressão popular que se fazia sentir no Brasil há já vários meses, o presidente da República, Venceslau Brás, declara guerra à Alemanha e aos seus aliados no dia 26 de outubro de 1917. Ainda a 4 de novembro, são torpedeados os navios Guaíba e Acari. São abertos os portos brasileiros às forças navais aliadas, assim como incumbe à marinha brasileira o patrulhamento do Atlântico Sul. Várias forças brasileiras integram as áreas de confronto na frente ocidental: a Força Aérea brasileira junta-se à Royal Air Force britânica, a Marinha atua, em auxílio dos ingleses, nas imediações do Estreito de Gibraltar; uma missão médica é enviada para França para auxiliar o corpo médico aliado; um contingente de oficiais serve junto do Exército francês.
     Nas conferências de paz que assinalam o fim da guerra, em Paris e em Versalhes, a representação brasileira garante reparações de guerra, em particular no que se refere aos navios afundados e às mercadorias destruídas.


– Sidónio Pais –

     Nasceu em 1872, em Caminha. Seguiu a carreira militar, mas viria a tornar-se também professor de Cálculo diferencial na Universidade de Coimbra. Defensor das ideias republicanas desde os tempos de estudante, fez parte de dois governos republicanos após a implantação da República. Em 1912 assumiu o cargo de ministro de Portugal na Alemanha, onde ficou até 1916 (ano em que a Alemanha declarou guerra a Portugal). Foi depois de regressar a Portugal que Sidónio Pais começou a ganhar maior destaque na vida política portuguesa. Tornou-se um dos principais líderes da contestação aos governos republicanos, à sua incapacidade para resolver os problemas dos Portugueses e à constante agitação política.
Sidónio Pais à entrada da Sé de Lisboa por altura do ofício religioso em memória dos soldados portugueses mortos em França.



     No dia 5 de dezembro de 1917, Sidónio Pais liderou um golpe de Estado que derrubou o governo republicano. Instaurou uma ditadura militar e assumiu o cargo de presidente da República. Tornou o regime mais presidencialista e apareceu como o homem forte que iria pôr ordem no país – era a “República Nova”. Inicialmente, teve grande apoio popular, com enormes multidões a recebê-lo onde quer que fosse. Porém, a continuação da participação de Portugal na guerra, as perseguições a opositores do regime e as dificuldades económicas rapidamente acabaram com este “estado de graça”. Voltaram as greves, os protestos e a agitação constante. A 5 de dezembro, um ano depois do golpe, Sidónio Pais escapou a um atentado. Contudo, pouca mais de uma semana depois, ao chegar à Estação do Rossio para embarcar com destino ao Porto, já não conseguiu escapar. As balas disparadas por José Júlio Costa no dia 14 de dezembro de 1918 acertaram no alvo e os tiros foram mortais.


Fontes:
Rúben Castro e Ricardo Ferrand, Grandes datas de Portugal (1096-2007), Texto Editores, Lisboa, 2011.
http://www.grandesguerras.com.br/artigos/text01.php?art_id=68
http://pt.wikipedia.org/wiki/Brasil_na_Primeira_Guerra_Mundial

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Os primeiros aldeamentos neolíticos: Çatal Hüyük

Reconstituição de Çatal Hüyük

     A descoberta deste aldeamento neolítico, situado na região da Anatólia, na atual Turquia, foi uma das descobertas arqueológicas mais significativas de todos os tempos. Datada de 6000 a.C., esta verdadeira cidade teria acolhido até 5000 habitantes repartidos por mais de mil casas. As habitações, feitas de adobes (tijolos de argila), eram retangulares e dispostas lado a lado como favos de mel. O acesso às casas efetuava-se pelo terraço atravès de escadas de madeira.No interior, havia fornos, lareiras e bancos de pedra.


CLICA NA IMAGEM
Reconstituição de uma casa de Çatal Hüyük

Interior de uma habitação neolítica de Çatal Hüyük

As ruínas da cidade de Çatal Hüyük

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Abril Revisitado



     La musique a toujours fait partie de l’imaginaire collectif du peuple portugais, accompagnant les moments-clés de son Histoire. La Révolution des Œillets n’a pas échappé à cette réalité, cette fois-ci à travers la chanson populaire. Dans un régime où la censure bayonnait la liberté des hommes, la chanson à texte est devenue une arme contre l’oppression. La pauvreté, les faibles perspectives d’avenir, l’analphabétisme, le clientélisme corporatiste et la corruption, l’immigration massive ou encore la discrimination raciale et les guerres coloniales marquaient le quotidien de ce Portugal alors pluri-continental.
     Au matin du 25 avril, le peuple portugais se réveille avec la nouvelle d’une révolution qu’il espérait depuis longtemps et qui mettra à terre un régime autoritaire de près d’un demi-siècle. Et c’est précisément par la chanson que le soulèvement avance et se matérialise. Le signal est donné au travers de deux chansons diffusées depuis les studios de la radio de l’État, permettant à ces «capitaines d’avril» de débuter et poursuivre ensuite l’insurrection. S’en suit un difficile apprentissage de la démocratie qui cependant permet au pays et à ses citoyens de s’ouvrir peu à peu à un monde qu’on leurs niait auparavant. La musique emprunte le même chemin en s’empreignant de nouvelles sonorités sans pour autant renier ses origines traditionnelles.
     Le Portugal est aujourd’hui un pays de la mondialisation, décidé à englober toute sa diversité ethnique, culturelle, linguistique... Dans ce sens, la langue portugaise, centrée sur le projet de la Lusophonie, est un instrument ancré dans son passé mais également tourné vers un avenir qui se veut pluriel. De nos jours, la musique est à nouveau un marqueur historique donnant une continuité à la mélancolie et à l’éternelle saudade si propres au fado (de l’âme lusitanienne, selon les poètes) sans pour autant s’abstenir de véhiculer un message fort à l’image des chanteurs engagés d’avril.


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     A música esteve sempre presente no imaginário do povo português, acompanhando os momentos decisivos da sua História. A Revolução dos Cravos não escapou a esta realidade, desta vez por intermédio da música dita “ligeira”. Aqui destacou-se a importância da palavra cantada, num regime em que a censura amordaçava a liberdade dos homens. A pobreza, as fracas perspetivas de futuro, o analfabetismo, o clientelismo corporativo e a corrupção, a emigração massiva, ou ainda a discriminação racial e as guerras coloniais marcavam o quotidiano deste Portugal que se estendia então do Minho até Timor. 

    Na manhã do dia 25 de abril de 1974, o povo português acorda com notícia de uma revolução há muito esperada e que irá derrubar um regime autoritário de quase meio século. É precisamente pela canção que a insurreição avança e se materializa. O sinal é dado por duas canções transmitidas a partir das instalações radiofónicas do Estado e que permitem aos “capitães de abril” iniciar e prosseguir depois o golpe de Estado. Segue-se a difícil aprendizagem da democracia que, contudo, permite ao país e aos seus cidadãos abrirem-se pouco a pouco para um mundo que lhes era antes negado. A música segue o mesmo trilho, incorporando novas sonoridades sem, no entanto, renegar a sua matriz tradicional. 

     Portugal é hoje um país da globalização, decidido a abarcar toda a sua diversidade étnica, cultural, linguística... Neste sentido, a língua portuguesa, centrada no projeto da Lusofonia, é assim um instrumento vincado no passado e terminantemente voltado para um futuro que se quer plural. Nos dias de hoje, a música é mais uma vez um marcador histórico, dando continuidade à melancolia e à eterna saudade tão características do fado (da alma lusitana, segundo os poetas) mas não deixando de veicular uma mensagem pungente à imagem dos cantores de Abril.





1. Belle Chase Hotel & Quinteto de Coimbra - VERDES ANOS 
(Carlos Paredes) in Movimentos Perpétuos - Música para Carlos Paredes, Universal Music, 2003 

    Une excellente interprétation de ce classique de Carlos Paredes, compositeur de Coimbra qui a donné à la guitare portugaise et au fado d’inspiration de Coimbra certains de ces plus beaux morceaux. Le thème Verdes Anos fut composé pour la bande originale du film de Paulo Rocha, Os Verdes Anos, une œuvre de 1962 qui décrit l’exode rurale et les conditions difficiles de ceux que partaient vers la ville à la recherche d’une vie meilleure. Cette version de 2003 allie les sonorités pop du groupe de Coimbra, Belle Chase Hotel, à la tradition du fado de Coimbra à travers ce quintette de guitares.

      Uma excelente interpretação deste clássico de Carlos Paredes, compositor de Coimbra que deu à guitarra portuguesa e ao fado de inspiração coimbrã alguns dos seus mais belos momentos. O tema Verdes Anos servira originalmente para a banda sonora do filme de Paulo Rocha, Os Verdes Anos, uma obra de 1962 que retratava o êxodo rural e a difícil condição dos que partiam para a cidade em busca de uma vida melhor. Esta versão de 2003 alia as sonoridades pop da banda de Coimbra, Belle Chase Hotel, à tradição do fado de Coimbra com este quinteto de guitarras.

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2. Cristina Branco - ERA UM REDONDO VOCÁBULO
(José Afonso) in Abril, Universal Music, 2007 



     La magnifique voix de la chanteuse à multiples facettes, Cristina Branco, caresse les splendides vers de ce Era um Redondo Vocábulo, de José Afonso. Originaire du fado de Coimbra, il fut l’un des principaux chanteurs engagés, dénonçant le régime autoritaire de Salazar à travers ses compositions, pendant les années 60 et 70. Era um Redondo Vocábulo est l’une de ses nombreuses chansons qui ont sans aucun doute contribuées à mettre à terre la dictature. Écrite, en 1970, de l’une des geôles de la prison de Caixas où il se trouvait en compagnie d’autres prisonniers politiques, ce thème est une des plus belles symbioses entre poésie et mélodie de la chanson portugaise. Plusieurs interprétations sont ici présentes : l’enfermement dans lequel l’auteur a composé, la guerre qui faisait rage en Afrique, la solitude qui envahissait ceux qui voyaient partir leurs pères, leurs maris, leurs frères, leurs amis…, la révolte à l’intérieur de chaque homme. Avec cette reprise de 2007, Cristina Branco a réussi à reproduire par sa voix et par des arrangements musicaux sublimes toutes les émotions présentes dans la version originale. 


     A magnífica voz da muito versátil cantora, Cristina Branco, embala os esplêndidos versos deste Era um Redondo Vocábulo, da autoria de José Afonso. Originário do fado coimbrão, fora um dos principais cantores de intervenção denunciando, durante as décadas de 60 e 70, a ditadura salazarista através das suas composições. Era um Redondo Vocábulo é uma das muitas canções que, sem dúvida, contribuíram a derrubar o regime. Escrita na prisão de Caixas em 1970, onde se encontrava com muitos outros presos políticos, Zeca Afonso produziu com este tema uma das mais notáveis simbioses entre poesia e melodia da canção portuguesa. Várias temáticas estão presentes aqui: o cativeiro, em que o próprio autor compôs, a guerra que assolava as terras africanas, a solidão que marcava os que viam partir os pais, os maridos, os irmãos, os amigos…, a revolta contida em todos os injustiçados. Cristina Branco conseguiu, nesta versão de 2007, reproduzir na íntegra toda a carga emocional que transparece no tema original através da sua voz mas também de arranjos musicais notáveis.

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3. Couple Coffee & Band - VAMPIROS
(José Afonso) in Co’as Tamaquinhas do Zeca, Transformadores, 2014



     Couple Coffee est un groupe brésilien offrant au travers de leurs albums une fusion entre les sonorités de leur pays et du Portugal, où il réside. Vampiros est une ballade de José Afonso composée en 1963 et qui s’inscrit dans la dénonciation de la corruption et du clientélisme corporatiste propre au régime dictatorial. Cette reprise nous offre une interprétation très funk de ce classique de la chanson engagée, sublimée par un suave accent sud-américain. 



     Couple Coffee é uma banda brasileira que, através dos seus álbuns, oferece uma fusão entre as sonoridades do seu país e de Portugal onde residem. Vampiros é uma balada composta por José Afonso, em 1963, que se inscreve na denúncia da corrução e do clientelismo corporativista próprio do regime ditatorial. Esta versão oferece-nos uma interpretação muito funk deste clássico da canção de intervenção, sublimada por um suave sotaque vindo de além-mar.


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4. Rodrigo Leão - O CAFÉ DOS IMIGRANTES
in Portugal, um Retrato Social, Columbia, 2007



    Rodrigo Leão est un compositeur de renom au Portugal pour avoir, en particulier, fondé des groupes comme Sétima Legião et Madredeus. À partir de 1994, il débute une carrière solo remarquable. Plusieurs albums voient le jour et notamment Portugal, um Retrato Social (2007), bande original du très dense documentaire du même nom, coordonné par le sociologue António Barreto : une profonde analyse de la société portugaise. O Café dos Imigrantes nous présente ainsi un aperçu de l’immigration portugaise, laquelle réside en grande partie dans des pays francophones (origine bien perceptible dans l’instrumentation du morceau). Les vacances venues, ces portugais d’ailleurs retournent dans leur pays et le café devient l’endroit où se rencontrent ceux qui sont partis et ceux qui sont restés. Comme s’il s’agissait d’une tour de Babel, les langues se mélangent dans une mélodieuse confusion. C’est l’immigration portugaise des années 60 et 70, et sa continuité… 

     Rodrigo Leão é um compositor de renome no panorama musical português, principalmente por ter sido o fundador de bandas como os Sétima Legião e os Madredeus. A partir de 1994, inicia-se uma carreira a solo muito profícua. Destacam-se vários álbuns, entre os quais Portugal, um Retrato Social (2007), banda sonora do extenso documentário do mesmo nome, da autoria do sociólogo António Barreto: uma análise profunda da sociedade portuguesa. O Café dos Imigrantes apresenta-nos um retrato da imigração portuguesa, a qual reside em grande parte em países francófonos (origem bem percetível na instrumentação do tema). Durante as férias, regressam os imigrantes e o café torna-se assim o lugar onde se encontram os que partiram e os que ficaram. Aí, como se de uma torre de Babel se tratasse, misturam-se as línguas numa melodiosa confusão. É a imigração portuguesa dos anos 60 e 70 e a sua continuidade…

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5. Chico Buarque - FADO TROPICAL
in Chico Canta, Phonogram/Philips, 1973

     En 1973, Francisco Buarque de Hollanda, plus connu sous le nom de Chico Buarque, édite l’album Chico Canta, dans lequel on retrouve cette chanson controversée, Fado Tropical. On y retrouve de nombreuses allusions et références à l’Histoire brésilienne, en particulier la colonisation portugaise et la dictature militaire établie au Brésil le 1er avril 1964, à la culture brésilienne construite sur le croisement d’influences variées venues de part et d’autre de l’Atlantique, ou encore aux notions de patrie, de patriotisme et de loyauté. Le titre même de ce morceau nous renvoie à diverses interprétations : le fado, style musical sur lequel repose la composition musicale, est ici également entendu dans son sens étymologique premier, du latin fatum, la destinée ; par ailleurs, l’adjectif tropical, au-delà de son sens géographique, nous renvoie aussi à l’empire colonial que les Portugais établirent dans les régions tropicales. Fado Tropical devient alors un manifeste contre l’oppression : celle des Portugais au Brésil pendant la période coloniale, mais aussi celle des dictatures qui, en simultanée, sévissent au Brésil et au Portugal, deux régimes connivents. C’est également, à travers la participation du cinéaste mozambicain Ruy Guerra, un soutien évident de la guerre d’indépendance des peuples africains contre l’occupation portugaise. Après la révolution du 25 avril 1974, la chanson est reprise par Georges Moustaki, donnant aux vers de Chico Buarque un sens différent, lié au contexte révolutionnaire portugais.


     Em 1973, Francisco Buarque de Hollanda, mais conhecido como Chico Buarque, edita o álbum Chico Canta, no qual se encontra esta controversa canção, Fado Tropical. Aqui encontram-se numerosas alusões e referências à História brasileira, em particular à colonização portuguesa e à ditadura militar instaurada no Brasil em 1 de abril de 1964, à cultura brasileira construída sobre um entrelaçar de influências em torno do Atlântico, às noções de pátria, de patriotismo e de lealdade… O próprio título remete para um universo interpretativo vasto: o fado, estilo musical em que assenta a composição melódica, é também aqui entendido no seu sentido etimológico primitivo, do latim fatum, o destino; por outro lado, o adjetivo tropical, para além da localização geográfica, remete também para o império colonial que os Portugueses formaram nos trópicos. Fado Tropical torna-se então um manifesto contra a opressão: a dos Portugueses no Brasil durante o período colonial, assim como a das ditaduras existentes em simultâneo no Brasil e em Portugal, dois regimes coniventes. É também, através da participação do cineasta moçambicano Ruy Guerra, um apoio evidente à guerra de libertação dos povos africanos contra a ocupação portuguesa. Após a revolução de 25 de abril de 1974, o tema é reinterpretado pelo cantor francês, Georges Moustaki, dando aos versos de Chico Buarque um sentido diferente, ligado o contexto revolucionário português.

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6. Waldemar Bastos & Dulce Pontes - VELHA CHICA
in O Primeiro Canto, Universal Music, 1999

     Né en Angola, Waldemar Bastos a débuté sa carrière en 1968 alors que son pays était encore une colonie portugaise. La Révolution des Œillets a amené l’indépendance de l’Angola mais aussi une longue période d’instabilité politique, se traduisant en une déchirante guerre civile de plus de 25 ans. Velha Chica intègre l’album Estamos Juntos, de 1983, lequel manifeste l’engagement toujours présent de l’auteur pour la réconciliation et l’union du peuple angolais. Interprété en compagnie de la chanteuse portugaise Dulce Pontes, Velha Chica décrit la pauvreté de ce peuple dans le contexte colonial mais également toute la souffrance qui advint de la guerre civile. Une voluptueuse mélodie de cordes accompagnée par deux voix transcendantes qui, à l’unisson, appelle à la paix, à la fin de la souffrance du peuple d’Angola.

     Nascido em Angola, Waldemar Bastos iniciou a sua carreira musical em 1968, ainda em tempos da colonização portuguesa. A Revolução dos Cravos trouxe a independência de Angola, mas também um longo período de instabilidade política para o país, traduzindo-se numa dilacerante guerra civil durante mais de 25 anos. Velha Chica integra o álbum Estamos Juntos, de 1983, e manifesta a preocupação sempre latente do seu autor em fomentar a reconciliação e a união do povo angolano. Interpretado aqui com a cantora portuguesa Dulce Pontes, Velha Chica retrata a pobreza do povo angolano no contexto colonial mas também todo o sofrimento que adveio da guerra civil. Uma voluptuosa melodia de cordas acompanhadas por duas vozes transcendentes que, em uníssono, apelam à paz, ao fim do sofrimento do povo de Angola.

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7. Mariza - MENINO DO BAIRRO NEGRO
(José Afonso) in Fado Curvo, Parlophone, 2003

     Sorti en 1963 et composé par José Afonso, Menino do Bairro Negro nous révèle ce signifiait être noir et vivre en Afrique sous le régime de Salazar. En 1961, la guerre éclate en Angola, s’étendant ensuite vers le Mozambique et la Guinée Bissau : les partisans du régime la nommèrent Guerre d’Outremer ; les indépendantistes, la Guerre de Libération. José Afonso expose dans cette chanson l’avenir de ces enfants des quartiers noirs des villes coloniales, de ce jeunes gens qui, un jour, mettront à terre ceux qui les oppriment. C’est la Révolution d’Avril qui mettra un terme à la guerre donnant lieu, par la suite, à l’indépendance. Qui mieux que l’éminente chanteuse de fado Mariza, née au Mozambique pendant la guerre, pour redonner vie à cette composition. Avec brio…

     Editado em 1963 por José Afonso, este Menino do Bairro Negro dá-nos conta da realidade que era ser negro e viver em África por altura do regime salazarista. Em 1961, iniciava-se a guerra em Angola, alastrando-se depois para Moçambique e Guiné-Bissau: uns chamaram-lhe Guerra do Ultramar; outros, Guerra de Libertação. José Afonso aponta para o futuro destes meninos do bairro negro que um dia erguer-se-ão para derrubar quem os oprime. É a Revolução de Abril que irá pôr fim à guerra dando lugar, depois, à independência. Quem melhor que a iminente fadista Mariza, nascida em Moçambique em tempos de guerra, para dar uma nova vida a esta composição. Brilhantemente…

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8. Mário Laginha & Bernardo Sassetti - E DEPOIS DO ADEUS
(Paulo de Carvalho) in Abril a Quatro Mãos/Grândolas, CNM, 2014

    E Depois de Adeus est un symbole du 25 avril 1974. La chanson est initialement composée pour le festival de la chanson de la radiotélévision portugaise de 1974, terminant à la première place. Quelques semaines plus tard, le morceau représente le Portugal au Festival Eurovision de la Chanson 1974. Le thème est devenu emblématique de la Révolution pour avoir servi de code pendant le coup d’État afin de donner le feu vert aux opérations militaires. Après la prise des studios de la radio nationale par le Mouvement des Forces Armées, on entend la phrase suivante : « Il est vingt-deux heures et cinquante-cinq minutes. Avec vous, Paulo de Carvalho et l’Eurovision 74». La diffusion de la chanson sonne le départ du coup d’État. Pour ne pas susciter de suspicions de la part des autorités, les rebelles avaient choisis une chanson sans référence politique et très populaire à l’époque. Quarante ans après, le duo de pianistes Mário Laginha et Bernardo Sassetti reprennent le morceau dans une version à « quatre mains».

     E Depois de Adeus é um símbolo do 25 de abril de 1974. A canção foi inicialmente composta para o Festival RTP da Canção de 1974 do qual saiu vencedor. O tema viria a representar Portugal no Festival Eurovisão da Canção 1974. A composição tornou-se emblemática da Revolução por ter sido utilizada como senha durante o golpe militar a fim de dar início às operações no terreno. Depois da tomada em Lisboa das instalações da Emissora Nacional pelo Movimento das Forças Armadas, ouve-se por parte do locutor a seguinte frase: «Faltam cinco minutos para a vinte e três horas. Convosco, Paulo de Carvalho com o Eurofestival 74.» A difusão do tema dá início ao golpe de Estado. Para não levantar suspeitas, escolhera-se um tema sem referências políticas e muito popular na época. Quarenta anos depois, o duo de pianistas, Mário Laginha e Bernardo Sassetti, editam esta versão a “quatro mãos”.

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9. José Afonso - GRÂNDOLA VILA MORENA
in Cantigas do Maio, Art’orfeu, 1971

     S’il fallait choisir une seule chanson d’avril, Grândola Vila Morena, de José Afonso, serait sans aucun doute l’élue. Composée en 1971, cette chanson fait partie de l’album Cantigas do Maio, lequel fut intégralement enregistrée en France afin de fuir la censure. Ce morceau est construit sur le modèle du chant traditionnel de la région de l’Alentejo, avec ses vigoureux chœurs masculins. Profondément humaniste, solidaire et fraternel, reprenant les combats de la gauche politique comme la lutte contre le fascisme et l’oppression, cette chanson fut interdite à diverses reprises. Symbole d’avril, Grândola Vila Morena est devenue aujourd’hui l’allégorie des valeurs de la démocratie, de la liberté, des droits des citoyens et du travail, ainsi que de toutes les luttes sociales au Portugal.

      Se tivéssemos que escolher uma canção de Abril, sem dúvida que Grândola Vila Morena, de José Afonso, seria a eleita. Composta em 1971, a canção integra o álbum Cantigas do Maio que, por questões de censura, fora integralmente gravado em França. A composição tem por base o canto tradicional alentejano com os seus possantes coros masculinos. Profundamente humanista, solidária e fraterna, retomando as temáticas esquerdistas do combate ao fascismo e à opressão, a canção foi várias vezes proibida pela censura do regime. Símbolo de abril, Grândola Vila Morena tornou-se hoje a alegoria dos valores democráticos, da liberdade, dos direitos dos cidadãos e do trabalho, assim como de todas as lutas sociais em Portugal.

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10. Madredeus - AS BRUMAS DO FUTURO
in Antologia, Parlophone, 2000

    Madredeus est un groupe mythique de la scène musicale portugaise. Fondé en 1985, les différents albums qui composent leur discographie constituent une fusion entre la musique traditionnelle portugaise, la musique érudite et les sonorités populaires contemporaines. La voix de Teresa Salgueiro, la guitare de Pedro Ayres Magalhães ou encore le piano de Carlos Maria Trindade ont atteint une renommée internationale pendant les années 90. En 2000, Maria de Medeiros réalise le film Capitães de Abril, retraçant les moments décisifs de la Révolution. La bande originale du film intègre le morceau As Brumas do Futuro, à la façon d’une ode à la liberté et à la démocratie que la Révolution des Œillets a permis. Interprété par Madredeus, la composition est l’œuvre du maestro António Victorino d’Almeida.

     Madredeus é uma banda mítica do panorama musical português. Fundado em 1985, os diversos álbuns que compõem a sua discografia constituem uma fusão entre música tradicional, música erudita e sonoridades populares contemporâneas. A voz de Teresa Salgueiro, a guitarra de Pedro Ayres Magalhães ou ainda as teclas de Carlos Maria Trindade ganharam uma projeção internacional durante a década de 90. Em 2000, Maria de Medeiros realiza o filme Capitães de Abril, retratando os momentos decisivos da Revolução de Abril. Para ilustrar as imagens, é concebida uma banda sonora na qual se destaca a canção As Brumas do Futuro, em jeito de ode à liberdade e à democracia que Abril possibilitou. Interpretado por Madredeus, o tema é da autoria do Maestro António Victorino d’Almeida.

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11. Sérgio Godinho & Caetano Veloso - LISBOA QUE AMANHECE
(Sérgio Godinho) in Irmão do Meio, Parlophone, 2003

     La période révolutionnaire achevée et la démocratie stabilisée, le pays s’ouvre peu à peu au monde et à sa globalisation. Comme au moment des Grandes Découvertes, les cultures se mélangent à nouveau. À partir des années 90, et en particulier avec l’Exposition Universelle de 1998 à Lisbonne, les projets interculturels sont de plus en plus nombreux et diversifiés. Dans la musique, où les sonorités répondent aux textes, la langue portugaise devient un instrument décisif de rapprochement. Cette chanson de Sérgio Godinho (qui durant la dictature s’exila à Paris), en duo avec le chanteur brésilien Caetano Veloso, est un bon exemple de ce pays rénové qui s’éveille à une nouvelle modernité.

     O período revolucionário concluído e a democracia estabilizada em Portugal, o país abre-se pouco a pouco ao mundo e à sua globalização. As culturas, como acontecera no período dos Descobrimentos, mesclam-se novamente. A partir da década de 90, e em particular com a Exposição Universal de 1998 em Lisboa, os projetos interculturais são cada vez mais numerosos e diversificados. No campo da música, onde a sonoridade responde às palavras, a língua portuguesa torna-se um instrumento decisivo de aproximação. Esta canção de Sérgio Godinho (que durante a ditadura se exilara em Paris) com a participação do cantor brasileiro Caetano Veloso, é um bom exemplo deste país renovado que desperta para uma nova modernidade.

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12. Trovante - PERDIDAMENTE
in Terra Firme, Parlophone, 1987

    Le groupe portugais Trovante s’est formé au cours des premières années de la démocratie, en 1976. Alliant un message politique fort et une fusion mélodique entre les rythmes de la musique traditionnelle portugaise et des sonorités plus modernes, le groupe s’est rapidement forgé un nom sur la scène musicale au Portugal. La chanson Perdidamente, qui adapte un sublime poème de Florbela Espanca, fut l’un de ses plus grands succès.

     A banda portuguesa Trovante nasce nos primeiros anos da democracia, em 1976. Rapidamente torna-se um conjunto musical com uma importante mensagem política, aliando, no campo melódico, sonoridades tradicionais a registos mais modernos. A canção Perdidamente, adaptando o sublime poema de Florbela Espanca, foi um dos seus mais notáveis êxitos.

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13. Rui Veloso - CHICO FININHO
in Ar de Rock, Fantasy Day, 1980

    Avec plusieurs années de retard, la majorité des Portugais découvre finalement la vague rock venue du monde anglo-saxon. Pendant la dictature, les groupes comme les Rolling Stones, Beatles, Led Zeppelin, Pink Floyd, et bien d’autres, étaient considérés subversifs par le régime et donc censurés. Les albums interdits ne circulaient que clandestinement. De cette façon, Rui Veloso apparait à la fin des années 70 comme un des pères du rock portugais, très influencé par le blues nord-américain. Chico Fininho est un des premiers grands succès du rock portugais. Le morceau nous fait également part le reflet des quartiers populaires de Porto, de sa petite délinquance et du phénomène des drogues qui se « démocratise ».

    Com vários anos de atraso, a maioria dos Portugueses descobre finalmente a onda rock vinda do mundo anglo-saxónico. Durante a ditadura, bandas como os Rolling Stones, Beatles, Led Zeppelin, Pink Floyd e muitas mais são consideradas subversivas pelo regime e, por conseguinte, censuradas. Os álbuns proibidos circulavam clandestinamente. Desta forma, Rui Veloso surge no final dos anos 70 como um dos pais do rock português, fortemente influenciado pelo blues norte-americano. Chico Fininho é um dos primeiros grandes êxitos do rock português. O tema é também um retrato social dos bairros populares da cidade do Porto, da pequena delinquência e do fenómeno das drogas que se “democratiza”.

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14. Bonga, Marisa Monte & Carlinhos Brown - MULEMBA XANGOLÁ
(Bonga) in Onda Sonora: Red Hot + Lisbon, Bar/None Records, 1998

     La Révolution des Œillets a signifié aussi la fin de la guerre en Afrique et, a posteriori, l’indépendance des anciennes colonies portugaises. Cependant, le processus d’indépendance a conduit, en Angola e au Mozambique, à une longue et violente guerre civile. Francisco Rogério, plus connu sous le nom de Bonga Kuenda, est l’un des principaux représentants de la culture musicale angolaise, largement ostracisé pendant la colonisation portugaise .  Bonga est devenu un défenseur de cette spécificité culturelle angolaise et en particulier du semba (style musical angolais à l’origine de la samba brésilienne) auquel il a juxtaposé des éléments de la musique portugaise. Le militantisme indépendantiste des textes de ses chansons, ainsi que la répression des autorités du régime colonialiste, l’obligent à s’exiler aux Pays-Bas. C’est là, en 1972, qu’il édite son premier album, chantant de sa voix rauque si particulière la lutte pour l’indépendance de son pays. En 1998, en collaboration avec les musiciens brésiliens Marisa Monte et Carlinhos Brown, il intègre à la compilation Onda Sonora: Red Hot + Lisbon cet effervescent hymne humaniste, Mulemba Xangolá.

     A Revolução dos Cravos significou também o fim da guerra em África e, posteriormente, a independência das antigas colónias portuguesas. No entanto, o processo de independência conduziu, no caso de Angola e Moçambique, a uma longa e violenta guerra civil. Francisco Rogério, mais conhecido por Bonga Kuenda, é um dos principais representantes da cultura musical angolana, a qual, durante a colonização portuguesa, fora remetida para uma posição subalterna. Bonga tornou-se um defensor da especificidade cultural angolana e, em particular, do semba (estilo musical angolano na origem do samba brasileiro) ao qual justapõe elementos da música portuguesa. Devido ao militantismo independentista dos textos das suas canções e, temendo represálias por parte do regime salazarista, exila-se para a Holanda. É aí que, em 1972, edita o seu primeiro álbum no qual a sua peculiar voz rouca canta a luta pela independência do seu país. Em 1998, em colaboração com os músicos brasileiros Marisa Monte e Carlinhos Brown, integra na coletânea Onda Sonora: Red Hot + Lisbon, este efervescente hino humanista, Mulemba Xangolá.

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15. Mariza & Tito Paris - BEIJO DE SAUDADE
(Mariza) in Terra, Parlophone, 2008

     Malgré les quarante ans qui nous séparent de la fin de la colonisation portugaise, le lien entre le Portugal et l’Afrique est encore bien présent. La grande communauté africaine émigrée au Portugal, la pénétration de la culture africaine dans la société portugaise à travers les retornados (le retour des portugais qui vivaient dans les colonies), les cinq siècles de présence en Afrique, ou encore le métissage sont quelques éléments qui nous permettent de comprendre la consistance de l’attache qui unit le Portugal et l’Afrique. La chanteuse luso-mozambicaine Mariza en est un des meilleurs exemples. La chanson Beijo de Saudade, interprétée avec le musicien cap-verdien Tito Paris, reflète bien ce profond rapport entre deux mondes apparemment distants mais qui finissent par se rejoindre par l’intermédiaire de ceux qui les ont côtoyés. Dans cette magnifique chanson, la guitare portugaise retrouve la chaleur de la morna (style musical cap-verdien).

    Apesar das quatro décadas que nos separam do fim da colonização portuguesa, a ligação entre Portugal e África está ainda bem presente. A grande comunidade africana emigrada em Portugal, a penetração da cultura africana na sociedade portuguesa através do fenómeno dos “retornados”, os mais de cinco séculos de presença em África, ou ainda a mestiçagem são alguns elementos que permitem entender a consistência do elo que une Portugal e África. A cantora luso-moçambicana, Mariza, é um dos melhores exemplos. O tema Beijo de Saudade, interpretado com o músico cabo-verdiano, Tito Paris, espelha essa ligação profunda entre dois mundos aparentemente distantes mas que acabam por se aproximar por intermédio daqueles que os partilharam. Nesta magnífica canção, a guitarra portuguesa encontra o calor da morna de Cabo Verde.

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16. The Gift - PRIMAVERA
in Primavera, La Folie, 2012

     La nouvelle génération de la musique moderne portugaise s’inscrit dans le phénomène musical mondial sans pour autant abdiquer d’une identité proche des traditions du pays. Le groupe The Gift, crée en 1995 dans la petite ville de Alcobaça, a peu à peu conquit la scène musicale portugaise grâce à un style singulier alliant des sonorités pop, un répertoire vocal proche du fado et des orchestrations très soignées. Primavera, inclus dans le dernier album du groupe, est un bon exemple de ce subtil mélange.


   A nova geração da música moderna portuguesa inscreve-se no fenómeno musical mundial sem, no entanto, abdicar de uma identidade próxima das tradições do país. A banda The Gift, fundada em 1995 na pequena cidade de Alcobaça, conquistou pouco a pouco o panorama musical português através de um estilo próprio que alia sonoridades pop, um repertório vocal que lembra o fado e orquestrações muito cuidadas. Primavera, incluído no último álbum da banda, é um exemplo desta mescla subtil.

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17. Márcia — DEIXA-ME IR
in Casulo, Parlophone, 2013

     Márcia est arrivé récemment dans le monde médiatisé de la musique, faisant partie d’une génération influencée par une musique acoustique et minimaliste. Deixa-me Ir, titre inclus dans son deuxième album Casulo, se veut simple, poétique et mélodieux. Un résultat très réussi pour une chanson intimiste qui nous renvoie à la réalité de ceux qui partent pour trouver leur bonheur, ailleurs…

     Márcia chegou muito recentemente ao mediatismo do mundo da música, fazendo parte de uma geração influenciada por uma música acústica e minimalista. Deixa-me Ir, título do seu segundo álbum, Casulo, quer-se simples, poético e melódico. Um resultado muito conseguido para uma canção intimista que nos leva à realidade dos que partem para encontrar a felicidade, noutro lugar…

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18. Rita Dias & Os Malabaristas - A GENTE DURA
in Com os Pés na Terra, Rita Dias, 2013

     La crise économique qui débute à la fin de l’année 2008 a confronté les populations avec des mesures de contention drastiques de la part des différents gouvernements. Austérité, croissance du chômage, insécurité de l’emploi sont des réalités qui se sont aggravées ces dernières années, principalement au Portugal. C’est dans ce contexte que la chanson a retrouvé sa forme contestataire à l’image des chanteurs engagés d’avril. Rita Dias & Os Malabaristas ont présentés leur premier album, Com os Pés na Terra, en 2013, où l’on découvre A Gente Dura, un morceau en forme d'hommage à la bravoure populaire.

    A crise económica que se iniciou no final de 2008 confrontou as populações com medidas drásticas de contenção por parte dos diferentes governos. Austeridade, crescimento do desemprego, insegurança laboral são algumas realidades que se agudizaram nos últimos anos, principalmente em Portugal. Neste contexto, a canção readquiriu um cunho contestatário à imagem dos cantores de Abril. Rita Dias & Os Malabaristas apresentaram o seu primeiro álbum, Com os Pés na Terra, em 2013, no qual se destaca A Gente Dura, tema em forma de homenagem à bravura popular.

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19. Capicua — MEDO DO MEDO
in Capicua, Optimus Discos, 2012

    Ana Matos Fernandes est Capicua. En 2012, elle fait son apparition avec succès sur la scène musicale portugaise, grâce à son premier album, Capicua. Le hip-hop de Capicua se fait remarquer par ses textes audacieux et poétiques, et par de puissantes rythmiques. Medo do Medo est, comme bien d’autres de ses chansons, un morceau politiquement engagé et contestataire. À l’image des compositions de chanteurs engagés comme José Afonso, il dénonce les dérives du monde contemporain et les violations de la liberté et de l’esprit démocratique de nos jours. Poignant et corrosif…

    Ana Matos Fernandes é Capicua. Em 2012, entra no panorama musical português fazendo sensação com o seu primeiro álbum, Capicua. O hip-hop de Capicua destaca-se pelos textos arrojados e poéticos, e por rítmicas possantes. Medo do Medo é, como outras composições da sua autoria, um tema politicamente engajado e contestatário. À semelhança da canção de intervenção de autores como José Afonso, denuncia as derivas do mundo contemporâneo e os atropelos à liberdade e ao espírito democrático na atualidade. Mordaz e corrosivo…

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