quinta-feira, 2 de junho de 2016

À volta dos livros: #3 Luís Sepúlveda - História de uma gaivota e do gato que a ensinou a voar

SEPÚLVEDA, Luís- História de uma gaivota e do gato que a ensinou a voar, Porto, Porto Editora, 2015.

Obra recomendada pelo PNL/Plano Nacional de Leitura para alunos do 7°ano-5ème

Estamos em Hamburgo, no norte da Alemanha, os pescadores recolhem as suas embarcações no porto de pesca. De repente, uma gaivota cai ao mar;  num mar poluído com petróleo negro como a noite. Debatendo-se com a lamacenta matéria, consegue finalmente livrar-se dum trágico fim. A muito custo voa até uma varanda onde, antes do último suspiro, dá vida a um belo e alvo ovo. É então que aparece Zorbas, um gato preto, grande e gordo...

Prof. Cecília Morais

sábado, 30 de abril de 2016

À porta da História - RTP



«A série documental que aqui apresentamos traz para o domínio do grande público 13 portugueses que se destacaram no seu tempo e, através das suas ações e/ou da sua obra, conquistaram um lugar na galeria de notáveis. Acima de tudo, são personalidades com percursos inesperados e cheios de curiosidade que nos vão entusiasmar. Personalidades que, por vários acasos do destino, foram deslizando para uma zona obscura do mediatismo histórico. Foram notáveis. Fizeram obra. Muitos deixaram seguidores e influenciaram as gerações seguintes. Mas são, hoje, pouco recordados nas efemérides, nas comemorações, nos manuais escolares, nas páginas de jornais - enfim, na nossa agenda mediática coletiva.»

CLIQUE nos episódios!

1896-1958
jogador, treinador e jornalista desportivo
co-fundador do jornal ABola
«Cidadão do mundo, defensor da liberdade até às últimas consequências, sai do campo de concentração para o campo de futebol. Alentejano, antifascista, funcionário dos CTT, jornalista, jogador, treinador e selecionador nacional, Cândido Fernando Plácido de Oliveira torna-se um espião valioso para os Aliados durante a 2ª Guerra Mundial. Toda a sua vida é uma corrida contra o tempo, mas com que vida é que entra na História?!...»

1894-1981
cantora lírica
autora do muito popular manual de cozinha portuguesa, O livro de Pantagruel
«Numa época em que as mulheres estavam destinadas a serem apenas donas de casa, esta mulher nascida em Moçambique, empreendedora e irreverente, estuda música, viaja pela Europa, lança uma linha de cosméticos e muda para sempre os hábitos culinários dos portugueses. Esta é a história de Bertha Rosa-Limpo, cantora lírica e senhora da alta sociedade lisboeta que não sabia estrelar um ovo quando se casou e que criou o "O Livro de Pantagruel", o manual de cozinha mais popular do séc. XX português.»

1992-1978
economista e professor universitário
estudioso da presença judaica em Portugal
«Economista, intelectual, apaixonado pela História, Moses Bensabat Amzalak, nascido em Lisboa em 1892, tem o grande sonho de trazer mais indústria e saber a um país essencialmente agrícola e cinzento.»

1891-1946
guitarrista e compositor de fado
«O fado é a sua vida e a guitarra a sua voz. Armandinho deixa para a História uma técnica e músicas que continuam a influenciar as novas gerações de guitarristas de fado.»

1884-1960
medico, político, escritor e historiador
«A sua vida é um combate pela liberdade. Da greve académica em 1907, até aos bancos da Assembleia Nacional, este intelectual beirão, amante da terra portuguesa, mas forçado ao exílio, está sempre pronto a largar os livros para lutar contra as ditaduras. Enquanto esse dia não chega, Jaime Zuzarte Cortesão, nascido em 1884, em Ançã, Cantanhede, assina discursos exaltados, poemas heroicos e faz aquilo que mais gosta. Escreve a História que se lê como o prazer de um romance.»

1878-1911
médica e feminista
primeira mulher a votar em Portugal
«Médica-cirurgiã, ativista e sufragista, dividiu as mulheres e uniu os homens. Carolina Beatriz Ângelo, natural da Guarda, foi a 1ª mulher a operar no Hospital de S. José. Derrubou preconceitos. Ganhou e perdeu batalhas. Onde muitos ergueram muros, ela abriu portas, escolhendo sempre o caminho mais difícil: o de não desistir. Foi a primeira mulher a votar em Portugal. Em Maio de 1911 entra numa sala cheia de homens e arriscando a sua reputação...fica na História!»

1868-1933
padre, cientista e inventor
precursor do aproveitamento da energia solar
«Visionário e inventor é padre, cientista e um enigma. Toda a sua vida é uma busca pelo saber. Interessa-se por religião, medicina, engenharia, economia, ecologia e educação. Para este padre nascido em Cendufe, em 1868, a ciência é um instrumento para o bem comum. Incompreendido pelos seus contemporâneos, Manoel António Gomes mais conhecido como Padre Himalaia vive muito à frente do seu tempo. Mas a História dar-lhe-á razão.»

1862-1931
revolucionário republicano
pioneiro do cinema, realizando o primeiro filme em Portugal
«Comerciante de sementes, com gosto pelas flores, captou com a sua máquina fotográfica e o seu imenso talento os últimos dias da monarquia. Apaixonado por tudo o que fazia, Aurélio Paz dos Reis, nascido no Porto, fotógrafo e pioneiro do cinema em Portugal, viveu para provar que uma imagem vale mais que mil palavras. Um dia, saiu à rua imortalizando um acontecimento trivial num dos marcos da História do país.»

1854-1929
escritor e militar
orientalista
«Segue os passos de Camões, Fernão Mendes Pinto e Camilo Pessanha. Parte para as terras do sol nascente. Vive em Macau. Visita a China e apaixona-se pelo Japão. Como não consegue levar Portugal para o Oriente tem a obsessão de trazer o Oriente para Portugal. A história de Venceslau José de Sousa Morais, nascido em 1857, em Lisboa, é um convite à viagem, à descoberta e ao exótico, tudo para que a nossa vida seja um livro de aventuras e não um conto de banalidades.»

1850-1898
oficial da Marinha portuguesa
explorador do continente africano
«Transforma um desafio numa paixão. A grandiosidade da paisagem africana, a surpresa da descoberta de novas terras, animais e costumes são o seu dia-a-dia em viagens solitárias e incertas. Numa época em que Portugal precisa de heróis para defender os seus territórios em África, o jovem explorador não hesita e parte para o desconhecido. Roberto Ivens, nascido em 1850 em Ponta Delgada, Açores, conhecido pelos companheiros de infância pela alcunha de Roberto do Diabo, suporta o cansaço, a fome, a sede, as febres e o desespero e caminha milhares de quilómetros para entrar na História.»

1843-1897
médico e professor universitário
benfeitor público
«A Medicina é a sua vida e a sua religião. Nasce no povo e chega a médico da família real, mas não esquece as suas origens. Vai aos bairros pobres de Lisboa tratar e dar auxílio. Percorre o país e a Europa em busca de conhecimento. Afasta charlatães e curandeiros. Não acredita em mezinhas e rezas. José Thomaz de Sousa Martins, nascido em 1893 em Alhandra, cria uma legião de admiradores em vida que o idolatra na morte. Nasce para ser médico fica para a História como santo.»

1872-1956
aristocrata, escultora
fundadora das Cozinhas Económicas
«Aristocrata numa sociedade burguesa, artista no meio de homens, lutadora entre operários miseráveis. Na arte procura o ideal de beleza, na rua enfrenta a realidade da pobreza. Vive em palácios, trabalha em cozinhas. Sonhadora de impossíveis, Dª Maria Luísa de Sousa Holstein Beck, 3ª Duquesa de Palmela, deixa para a História uma obra social tão duradoura como as suas esculturas.»

1828-1912
poeta, ensaísta
gastrónomo
«Nascido em Bilbau, filho de pai português e mãe espanhola, poeta, monárquico, memorialista, burocrata, gastrónomo e amante de caça percorre os ambientes boémios de Lisboa, nos finais do séc. XIX, em busca de glória. Raimundo António de Bulhão Pato ficará para a História não pela sua veia poética mas pelo nome do petisco que nunca cozinhou mas ao qual deram o seu nome.»

RTP (Langform).svg

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Abril na imprensa...

Hoje, talvez assim fosse pelos jornais deste mundo...

República, PORTUGAL

The Guardian, GRÃ-BRETANHA

Aftonbladet, SUÉCIA

El País, ESPANHA

Le Monde, FRANÇA 

La Repubblica, ITÁLIA

The New York Times, ESTADOS UNIDOS

Novaya Gazeta, RÚSSIA

Süddeutsche Zeitung, ALEMANHA

Politiken, DINAMARCA

De Volkskrant, PAÍSES BAIXOS

Aftenposten, NORUEGA

Asahi Shinbun, JAPÃO


conceção: Miguel Guerra

sexta-feira, 4 de março de 2016

Falando japonês em português...


     A comunidade japonesa no Brasil é uma das mais importantes do país. O início da imigração japonesa no Brasil remonta aos inícios do século XX; oficialmente, usa-se a data de 18 de junho de 1908, altura em que o navio japonês Kasato Maru atraca no porto de Santos. Da embarcação saem 781 lavradores prontos a trabalhar nas fazendas do interior da região paulista. Durante todo o século XX, a chegada de imigrantes é constante. Hoje, contam-se cerca de 1,5 milhão de japoneses e descendentes no território brasileira, contribuíndo para a mestiçagem da população e para o enriquecimento da sua cultura.

O navio Kasato Maru no porto de Santos (18/06/1908)

     A seguir, um conto japonês... em português.



 In As História Preferidas das Crianças Japonesas, Livro I, São Paulo, Editora JBC, 2005.

terça-feira, 1 de março de 2016

Universidade de Coimbra - 726 anos

     Mais uma vela para a velhinha Universidade de Coimbra, uma das mais ilustres e antigas da Europa. O diploma régio de D. Dinis, Scientiae thesaurus mirabilis, funda, no dia 1 de Março de 1290, a primeira universidade portuguesa. É desde 2013 património mundial da UNESCO.



Selo da Universidade de Coimbra - Insignia Universitatis Conimbrigensis

Selo da universidade em calçada portuguesa junto à Porta Férrea, entrada de honra da instituição.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Escravos e escravatura em Portugal

Punição de um escravo
(gravura de Jean-Baptiste Debret, in Voyage pittoresque et historique au Brésil, 1834-39) 
CLIQUE AQUI
História a História: "Escravos e escravatura em Portugal"
(ou em vimeo.com/145862037)

PERGUNTAS:
1. Indica a data e o local da primeira partilha de escravos em Portugal.
2. Quais eram as três praças de mercado usadas, em Lisboa, para o comércio de escravos.
3. Que grupos populacionais estavam proibidos de possuir escravos em Portugal? Porquê?
4. Qual é a percentagem de escravos apontada pelos historiadores em Lisboa, no século XVI.
5. Qual é a origem da rua do Poço dos Negros?
6. O que é uma carta de alforria?
7. O que significa a alforria testamentária?
8. Quem, no século XVI, ordenou a conversão dos escravos ao Cristianismo?
9. Quem é o autor das primeiras leis abolicionistas, em Portugal? Em que século?
10. Refere a data da abolição total da escravatura em Portugal. E no Brasil?

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Efemérides da História Lusófona: #5 A Restauração da Independência (01 de dezembro de 1640)

– Após 60 anos, Portugal expulsa os Espanhóis –
     Os primeiros anos de governo de Filipe I foram, em geral, bem aceites pelos Portugueses, apesar do desejo de Portugal ter um rei português não ter desaparecido. Porém, Espanha era um país rico e poderoso; Filipe I cumpriu as promessas que fizera em Tomar e Portugal parecia estar a recuperar dos problemas provocados pelo mau governo de D. Sebastião.
     Esta situação começou a mudar quando Filipe II (III de Espanha) subiu ao trono. Espanha enfrentava problemas económicos sérios: a quantidade de prata que chegava da América estava a diminuir e eram necessários cada vez mais impostos para suportar as despesas do império ultramarino. Os impostos aumentaram bastante em Espanha e em Portugal. Além disso, Filipe II nomeou, para o Conselho de Portugal, minitros espanhóis, quebrando a promessa que Filipe I fizera em Tomar. A situação piorou ainda mais no reinado de Filipe III (IV de Espanha). Os impostos continuaram a aumentar, os ataques dos Ingleses, Franceses e Holandeses (inimigos de Espanha) fizeram perder muitos territórios do império português e muitos portugueses foram obrigados a juntar-se aos exércitos espanhóis nas suas guerras na Europa. Em 1637, surgiram revoltas em Évora e no Algarve contra o governo espanhol. Em 1640, uma conspiração de alguns membros da nobreza conseguiu finalmente o apoio de D. João, duque de Bragança, neto de D. Catarina.
     Os conspiradores, com a promessa de ajuda de França, e num momento em que Espanha tinha de resolver revoltas internas, decidiram colocar o seu plano em prática. No dia 1 de dezembro, foram ao palácio real de Lisboa e prenderam a duquesa de Mântua, prima do rei, que governava Portugal como vice-rainha, assim como foi morto o seu secretário de Estado, Miguel de Vasconcelos (reza a história que, depois de morto, o corpo terá sido defenestrado de uma das janelas do palácio real). O duque de Bragança foi então aclamado rei nas ruas de Lisboa, com o título de D. João IV. Portugal recuperara a independência.
A proclamação de D. João IV, por Columbano Bordalo Pinheiro

– D. João IV –
     D. João IV nasceu em Vila Viçosa, em 1604, filho de D. Teodósio, duque de Bragança. Era neto de D. Catarina, uma das pretendentes ao trono depois da morte do cardeal-rei D. Henrique. Duque de Bragança e descendente de D. Manuel I, D. João era o nobre mais poderoso de Portugal. Desde muito cedo, tentaram aproximá-lo de Espanha, para que não fosse “tentado” a reclamar o direito ao trono português. Casou com uma dama de uma das mais importantes famílias espanholas, D. Luísa de Gusmão. Em 1639, foi nomeado governador militar de Portugal, sendo responsável por recrutar os soldados portugueses que se deviam juntar ao exército espanhol, o que podia torná-lo muito impopular junto da população portuguesa.
Estátua equestre de D. João IV, frente ao palácio ducal de Vila Viçosa

     D. João, porém, soube manter uma certa neutralidade e, quando começou a conspiração que pretendia derrubar o governo espanhol, foi convidado para ser o seu líder. D. João, apesar de algumas dúvidas, acabou por aceitar. Quando a conspiração saiu vitoriosa, foi aclamado rei em Lisboa, a 15 de dezembro de 1640. Com ele iniciou-se a quarta Dinastia de Portugal: a de Bragança.
     Mas a luta pela independência não terminou ali. A guerra com Espanha durou 28 anos e foi preciso um esforço militar e financeiro muito grande para ganhá-la. Este esforço impediu que Portugal conseguisse defender muitos do seus territórios ultramarinos, perdendo-os para os Holandeses e os Franceses. Recuperada a independência, havia, porém, ainda muito para fazer. D. João IV morreu em 1656. Sucedeu-lhe o filho, D. Afonso VI.
Bandeira de D. João IV

– A mentira –
     Lamego, cidade da Beira Alta, ficou ligada à restauração da independência por algo que nunca existiu. Para justificar o direito de D. João IV a reclamar o trono, de modo a não parecer um usurpador, apresentaram-se as atas de uma reunião de Cortes que teria acontecido em Lamego, em 1143 (no tempo de D. Afonso Henriques). Estas atas (que não passavam de uma falsificação feita por volta de 1632) diziam que as mulheres não podiam nem herdar a Coroa nem transmitir direitos sucessórios a ela, a menos que tivessem casado com nobres portugueses. Isto queria dizer que Filipe II não podia ter sido escolhido rei. D. João IV limitar-se, por isso, a restaurar a linha legítima de sucessão ao trono – daí o nome de Restauração.

– A hora do chá –
     Para conseguir que a restauração da sua independência fosse reconhecida pelos outros países europeus, Portugal fez muitos esforços diplomáticos. Um deles levou ao casamento de D. Catarina, filha de D. João IV, com o rei de Inglaterra, Carlos II. Uma das coisas que D. Catarina levou para Inglaterra foi o hábito de beber chá, que viria a tornar-se uma espécie de “bebida nacional” inglesa...
D. Catarina de Bragança, rainha de Inglaterra, por Peter Lely, 1663-1165
Fonte: Ruben Castro e Ricardo Ferrand, Grandes datas de Portugal (1096-2007), Texto Editores, Lisboa, 2011.

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Efemérides da História Lusófona: #3 A independência de Angola (11 de novembro de 1975)


     No dia 11 de novembro de 1975, Angola proclama a sua independência. Se este dia marca o nascimento de um novo país, ao mesmo tempo que o encontro de uma nação com um Estado ainda por criar, assinala também o término da presença portuguesa. Em 1485, Diogo Cao alcançara as margens do rio Congo onde deixara a marca da sua passagem (ver Pedra de Ielala). Cerca de cinco séculos depois chega ao fim uma história comum, cheia de sofrimento, dramas, injustiças mas também de cooperação, enriquecimento mútuo, interculturalidade e de humanidade.

Brasão da Província Ultramarina de Angola

     É António Agostinho Neto, médico, escritor e líder do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), quem proclama solenemente a independência do país.
Agostinho Neto: «o MPLA proclama solenemente perante a África e o Mundo, a independência de Angola», 11/11/1975

Discurso de proclamação da independência
     No contexto do movimento de libertação de Angola, os escritores, e em particular os poetas, tiveram um papel muito importante na luta contra o colonizador português; vozes que denunciaram a condição do povo negro, a descriminação de que era alvo e todo o seu sofrimento.
     Deixemos a palavra aos poetas deste nosso povo irmão:

ADEUS À HORA DA LARGADA (1951) António Agostinho Neto
Minha mãe
(todas as mãe negras
cujos filhos partiram)
tu me ensinaste a esperar
como esperaste nas horas difíceis

Mas a vida
matou em mim essa mística esperança

Eu já não espero
sou aquele por quem se espera

Sou eu minha Mãe
a esperança somos nós
os teus filhos
partidos para uma fé que alimenta a vida

Hoje
somos as crianças nuas das sanzalas do mato
os garotos sem escola a jogar a bola de trapos
nos areias ao meio-dia
somos nós mesmos
os contratados a queimar vidas nos cafezais
os homens negros ignorantes
que devem respeitar o homem branco
e temer o rico
somos os teus filhos
dos bairros de pretos
além aonde não chega a luz elétrica
os homens bêbedos a cair
abandonados ao ritmo dum batuque de morte
teus filhos
com fome
com sede
com vergonha de te chamarmos Mãe
com medo de atravessar as ruas
com medo dos homens Bandeira de Angola
nós mesmos

Amanhã
entoaremos hinos à liberdade
quando comemorarmos
a data da abolição desta escravatura

Nós vamos em busca de luz
os teus filhos Mãe
(todas as mães negras
cujos filhos partiram)
Vão em busca de vida.

CONSCIENCIALIZAÇÃO (1951) António Agostinho Neto
Medo no ar!

Em cada esquina
sentinelas vigilantes incendeiam olhares
em cada casa
se substituem apressadamente os fechos velhos
das portas
e em cada consciência
fervilha o temor de se ouvir a si mesma

A História está a ser contada
de novo

Medo no ar!

Acontece que eu
homem humilde
ainda mais humilde na pele negra
me regresso Àfrica
para mim
com os olhos secos.

PRELÚDIO (1951) ALDA LARA

(para a Lydia – minha velha ama negra)

Pela estrada desce a noite
Mãe-Negra, desce com ela...

Nem buganvílias vermelhas,
nem vestidinhos de folhos,
nem brincadeiras de guisos,
nas suas mãos apertadas.
Só duas lágrimas grossas,
em duas faces cansadas.

Mãe-Negra tem voz de vento,
voz de silêncio batendo
nas folhas do cajueiro...

Tem voz de noite, descendo,
de mansinho, pela estrada...

Que é feito desses meninos
que gostava de embalar?...

Que é feito desses meninos
que ela ajudou a criar?...
Quem ouve agora as histórias
que costumava contar?...

Mãe-Negra não sabe nada...
Mas ai de quem sabe tudo,
como eu sei tudo
Mãe-Negra!...

Os teus meninos cresceram,
e esqueceram as histórias
que costumavas contar...

Muitos partiram p'ra longe,
quem sabe se hão-de voltar!...

Só tu ficaste esperando,
mãos cruzadas no regaço,
bem quieta bem calada.

É a tua a voz deste vento,
desta saudade descendo,
de mansinho pela estrada…



O RITMO DO TANTÃ (1970) António Jacinto
O ritmo do tantã não o tenho no sangue
nem na pele
nem na pele
tenho o ritmo do tantã no coração
no coração
no coração
o ritmo do tantã não tenho no sangue
nem na pele
nem na pele
tenho o ritmo do tantã sobretudo
mais do que pensa
mais do que pensa
Penso África, sinto África, digo África
Odeio em África
Amo em África
Estou em África
Eu também sou África
tenho o ritmo do tantã sobretudo
no que pensa
no que pensa
penso África, sinto África, digo África
E emudeço
dentro de ti, para ti África
dentro de ti, para ti África
África
           África
                       África.